Embora fértil em pseudoacontecimentos, notícias virtuais e relatos fátuos, e agora também pejada de verdades alternativas, factos arbitrários e fake news, a silly season brinda-nos de quando em vez com a verdadeira Atualidade. Todavia, e vacinados contra as sempre patriotas férias algarvias dos governantes, os livros de bolso preferidos de meia dúzia de figuras da nossa televisão e as infidelidades caricaturadas de interesse público do jet set monárquico europeu, tais novidades poderão escapar-se-nos na espuma noticiosa quotidiana. Temo que algo do género tenha acontecido em julho passado com os dados revelados pela Startup Portugal sobre a maturidade do ecossistema empreendedor português.
Aproveito, pois, a rentrée para relembrar esse relatório que apresentava algumas conclusões dignas de registo para memória futura. A primeira inferência sublinhava que as vendas, produtos e serviços oferecidos pelas startups lusas em 2018 atingiram os 2,2 mil milhões de euros, o correspondente a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. A segunda ilação comprovava que as exportações, com uma forte contribuição do turismo, aumentaram dos 673 milhões de euros registados em 2016 para 1121 milhões de euros em 2018, o que representa 1,9% do total das exportações portuguesas. A terceira ilação confirmava o crescimento contínuo dos postos de trabalho nos últimos três anos: 15534 em 2016; 20271 em 2017; e 25084 em 2018. Contudo, a multiplicação dos números estende-se a outras variáveis igualmente passíveis de salutar comentário.
Atente-se ao aumento de incubadoras mapeadas (121 em 2016, 135 em 2017 e 153 em 2018), ao incremento das startups em processo de incubação (2193 em 2016, 3004 em 2017 e 3124 em 2018), e ao alargamento da taxa de sobrevivência destas empresas de rápido crescimento durante o ano zero (80,43% em 2017 contra 86,56% em 2018). Juntemos neste instante à sadia radiografia os recentes investimentos anunciados pelas diversas sociedades de capital de risco portuguesas: a Portugal Ventures aplicou 9 milhões de euros em 14 startups no primeiro semestre (Azitek, Beamian, CellmAbs, Chemitek, Fyde, Lovys, Noocity e TargTex são somente algumas); a Bright Pixel investiu mais de seis milhões de euros em 15 projetos tecnológicos (blockchain, inteligência artificial e data analytics); e a Indico Partners detém 46 milhões de euros para utilizar em startups (anunciou entretanto investimento na Zenklub, Sound Particles, Bitcliq e Attentive). A cereja em cima do bolo: Portugal colocou dez startups entre as 100 mais promissoras da Europa.
Na verdade, Sound Particles (ferramenta de áudio usada pela indústria de Hollywood), Attentive (software que permite aumentar a produtividade das equipas de vendas), Barkyn (plataforma de acesso a ração, veterinários, treinadores e brinquedos para cães), Sword Health (sistema de fisioterapia digital que conjuga inteligência artificial e equipas humanas), Heptasense (software de reconhecimento de gestos e análise de movimento em tempo real), DefinedCrowd (recolha de dados para serem usados em máquinas com inteligência artificial), Undandy (permite 156 biliões de combinações possíveis para a personalização de calçado), Koala Rest (entrega de colchões diretamente em casa dos compradores com a possibilidade de serem devolvidos no prazo de 30 dias), Eat Tasty (entrega de refeições caseiras) e Sensei (solução para o sector do retalho que permitirá criar a primeira loja autónoma e com check-out) surgem no ranking anual da revista britânica "Wired", a bíblia mundial da tecnologia.
Neste contexto, somente "precisamos que os nativos digitais tomem conta da política", como um destes dias recomendava o Presidente da Startup Portugal, para o cenário tornar-se ainda mais entusiasmante. De resto, Simon Schaefer preconizava paralelamente que Lisboa poderia substituir a Berlim dos anos 90 onde inovação, energia criativa e transformação do tecido social constituíam a tríade de um sucesso vindouro, emergente, contaminador (alavancado ademais para excelência das nossas universidades). Sendo que teremos a tarefa facilitada pois nem precisaremos à anteriori de derrubar qualquer muro!
* José Pedro Salas Pires é Presidente da ANETIE, Associação Nacional das Empresas das Tecnologias de Informação e Electrónica