A sociedade da inovação em que Diogo Vasconcelos acreditava

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Hoje será apresentado no CEIIA, em Matosinhos, o Livro da Vida e Obra de Diogo Vasconcelos. Diogo Vasconcelos deu o nome a este Centro de Excelência e Inovação, que é um exemplo da aposta no conhecimento que o Diogo tanto defendia. Discutir e avaliar hoje a dimensão estrutural da aposta da transformação de Portugal numa verdadeira Sociedade da Inovação é de forma clara antecipar com sentido de realismo um conjunto de compromissos que teremos que ser capazes de fazer para garantir o papel do nosso país num quadro competitivo complexo mas ao mesmo tempo altamente desafiante. "A Inovação tem que ser a grande ideia para o país", defendia muito bem Diogo Vasconcelos. Na Nova Agenda que o país precisa, tem que se ser capaz de dotar a sociedade com os instrumentos de qualificação estratégica do futuro. Fazer da Tecnologia e da Competência os elementos que farão a diferença na criação de valor e no reforço dos níveis estratégicos de confiança. É esse o imperativo de uma verdadeira Sociedade da Inovação como aquela em que Diogo Vasconcelos acreditava.

Tem que se ser capaz de induzir na sociedade uma capacidade endógena de reação empreendedora perante os desafios de mudança suscitados pela sociedade em rede e que esta pandemia - com os seus efeitos - veio acentuar; os instrumentos de modernidade protagonizados pelas TIC são essenciais para se desenvolverem mecanismos autosustentados de adaptação permanente às diferentes solicitações que a globalização das ideias e dos negócios impõe. Esta nova dimensão da inovação configura desta forma uma abordagem proactiva da sociedade abordar a sua própria evolução de sustentabilidade estratégica. A Sociedade da Inovação é a resposta certa aos novos desafios que temos pela frente neste tempo incerto e complexo. Diogo Vasconcelos tinha a noção exata de que só com uma aposta na capacitação da sociedade e na sua mobilização para uma agenda de compet se conseguiria dar um salto estratégico para o futuro.

Os Centros de Competência do país (Empresas, Universidades, Centros de I&D) têm que ser orientados para o valor. O seu objectivo tem que ser o de induzir de forma efetiva a criação, produção e sobretudo comercialização nos circuitos internacionais de produtos e serviços com valor acrescentado susceptíveis de endogenizar massa crítica no país. Só assim a lição de Porter entra em ação. A internalização e adoção por parte dos atores do conhecimento de práticas sustentadas de racionalização económica, aposta na criatividade produtiva e sustentação duma plataforma de valor com elevados graus de permanência é decisiva. Diogo Vasconcelos apostou em projetos muito inovadores que foram à data uma verdadeira referência pelo seu impacto estratégico, como a B-On, a ampla digitalização do Estado, e mais tarde todo um contexto estratégico associado à Inovação Digital.

A cooperação estratégica entre setores, regiões, áreas de conhecimento, campos de tecnologia, não pode parar. Vivemos a era da cooperação em competição e os alicerces da vantagem competitiva passam por este caminho. Sob pena de se alienar o capital intelectual de construção social de valor de que tanto nos fala Anthony Giddens neste tempo de (re)construção. Na economia global das nações, os atores do conhecimento têm que internalizar e desenvolver de forma efectiva práticas de articulação operativa permanente, sob pena de verem desagregada qualquer possibilidade concreta e efectiva de inserção nas redes onde se desenrolam os projectos de cariz estratégico estruturante. Aquando da sua experiência na Cisco, e no contexto de várias dimensões de intervenção que procurou dinamizar, esta foi claramente uma das grandes apostas do Diogo Vasconcelos.

Importa fazer da Inovação o driver da mudança da nossa Sociedade. A desertificação do interior, a incapacidade das cidades médias de protagonizarem uma atitude de catalisação de mudança, de fixação de competências, de atracção de investimento empresarial, são realidades marcantes que confirmam a ausência duma lógica estratégica consistente. Não se pode conceber uma aposta na competitividade estratégica do país sem entender e atender à coesão territorial, sendo por isso decisivo o sentido das efectivas apostas de desenvolvimento regional de consolidação de clusters de conhecimento sustentados. O imperativo de uma Sociedade da Inovação é assim o grande desafio para o nosso futuro coletivo. Era essa a grande mensagem do Diogo Vasconcelos que hoje mais do que nunca é um exemplo para o futuro.

(O autor escreve de acordo com o Anterior Acordo Ortográfico)

Francisco Jaime Quesado, Economista e Gestor - Especialista em Inovação e Competitividade

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