

A Beyond Vision já atravessou o Atlântico e instalou-se nos EUA e Brasil. Na mira expansionista, estão também países europeus como Espanha, Polónia ou Alemanha. Dário Pedro, CEO da empresa, revela nesta entrevista ao DN/DV que está em curso um plano de crescimento a cinco anos.
Vou iniciar a entrevista com uma questão um pouco provocatória. A Beyond Vision é uma indústria da guerra?
É uma empresa de duplo uso. Tradicionalmente temos operado sobretudo no setor civil. A Beyond Vision iniciou atividade em 2013 e nos primeiros cinco anos estivemos a trabalhar projetos de investigação mais ligados ao software. Em 2018, com o sucesso de alguns projetos de drones, decidimos reestruturar a empresa como um todo e focar nessa área. Desde a invasão da Rússia à Ucrânia pediram-nos para começar a olhar para o setor de defesa. E é isso que temos feito nos últimos três anos. Mas o setor civil tem muito peso para nós.
A guerra no Médio Oriente é uma oportunidade para a empresa?
No Médio Oriente, em concreto nos Emirados e na Arábia Saudita, só temos tido operações civis, mais ligadas à proteção ambiental e animal. Este contexto geopolítico, obviamente, traz um crescimento de investimentos na defesa, mas a Europa já estava a fazer esses investimentos, independentemente do Médio Oriente. Neste momento, não estamos a sentir grande diferença na nossa atividade. É um mercado a explorar, mas neste momento acho que o mercado europeu tem maior potencial na nossa análise do que os Emirados e a Arábia Saudita.
E a Ucrânia? Estão a fornecer drones?
Não vou abrir muito o jogo. O que posso dizer é que temos fornecido não só por Portugal, mas para outros países. Iremos continuar a apoiar, na medida que a União Europeia assim o considere.
Entraram agora no mercado dos Estados Unidos. O que estão a fazer?
Estamos a desenvolver um projeto para os EUA, mas o objetivo é expandir para outros países onde já temos atividade, como o Brasil. Temos uma encomenda mínima de 300 unidades para as forças policiais dos EUA. O contrato é com uma empresa privada que fornece as forças policiais norte-americanas. Foram definidas as especificações mínimas dos equipamentos e uma compra mínima anual durante três anos. Nesse período, têm que comprar no mínimo 300 drones, o que equivale a 15 milhões de euros. Mas pode chegar a números muito superiores.
Têm outras ambições nos EUA?
Temos um plano a quatro anos. A primeira fase está mais ou menos concluída. Era iniciar atividade e começar um projeto que nos colocasse no mapa e desse algum destaque. Estamos agora na segunda fase, que passa por ter instalações e uma equipa para começar a ter mais networking, sobretudo na área de defesa. A terceira fase será criar uma pequena unidade de produção nos EUA, com alguns componentes a serem fabricados cá. A quarta será replicar muito da estrutura que temos em Portugal nos EUA para conseguirmos depois gerir melhor situações como as tarifas, entre outras. Iremos ter colaboradores locais e expatriados.
Começaram com a produção de drones para o setor civil e agora produzem para teatros de guerra. Este redirecionamento foi exigente?
A Beyond Vision desenvolveu drones bastante modulares que conseguem ser adaptados a diferentes situações. Nas recentes tempestades no país, muitos dos nossos drones foram usados para motorização. No passado, fizemos instalação de rede energética com drones. É uma das nossas áreas em forte crescimento. Temos projetos de logística, projetos de videovigilância em múltiplas indústrias. Os drones podem ser utilizados em várias indústrias e projetos. Podem fazer mapeamentos de minas ou de outros tipos de exploração. A regulamentação na Europa ainda é muito pesada neste setor. E temos o setor de defesa. A nossa ligação é sobretudo com as forças armadas portuguesas e com países que estão a fornecer a Ucrânia. Operamos sobretudo na videovigilância.
Qual foi o papel dos vossos drones nas tempestades?
Nós trabalhámos sobretudo com a E-Redes, EDP e Proteção Civil. A maior parte do trabalho foi perceber a situação, ou seja, fazer quase uma análise da destruição causada pela tempestade, para serem rapidamente planeadas ações de reparação. Foi uma ação de resposta imediata, que durou cerca de três semanas e na qual chegámos a ter oito equipas alocadas. Continuamos a trabalhar com essas entidades, embora não com a força inicial.
Esta é uma área que claramente vamos trabalhar a nível interno para propor soluções de contingência ao Governo, um plano estratégico para o caso de se voltar a repetir fenómenos idênticos. Na altura, tivemos que ajudar com a prata da casa. Nós tipicamente produzimos drones para projetos que estão planeados. Não temos na nossa posse drones para uma operação destas. O que nós fizemos foi juntar vários tipos de protótipos, tudo o que estava disponível, modificá-los para a configuração que fazia sentido para dar resposta às necessidades e utilizar as equipas que tínhamos ao nosso dispor para esse fim. Mas seria muito útil ter drones preparados para cenários de catástrofe. Acho que era muito importante haver planos para cenários destes.
Os incêndios são um flagelo em Portugal. Já foram chamados para dar apoio com os vossos drones?
Os incêndios são um tema complexo, sobretudo em Portugal. Os drones são um bocado tabu e o planeamento com recurso a outros meios aéreos que envolvam drones em simultâneo ainda não existe. Existe a possibilidade de fazer operações à noite, quando os helicópteros não podem operar, mas os pedidos e autorizações para drones à noite em Portugal são uma dor de cabeça. E em cenários de urgência não se pode estar à espera seis meses por uma autorização. Até agora nunca conseguimos operar em Portugal.
Já fizemos projetos lá fora, de algoritmos de perceção de perímetro e de resposta a incêndios, mas nunca em Portugal. Em vários países europeus já trabalhámos em várias áreas, por exemplo na Alemanha, que supostamente deveria seguir as mesmas diretrizes da União Europeia que nós. Há países europeus muito mais permeáveis a projetos de inovação do que Portugal.
Quais são as vantagens de ter drones a atuar em situações de incêndios?
Há muitos cenários em que podem ajudar. Por exemplo, nós temos um sensor que se coloca no drone, que consegue estabelecer comunicação com quem tiver algum dispositivo móvel e também perceber onde é que se encontram as pessoas. Ou seja, num cenário em que se começa a ter zonas fechadas, conseguimos ter uma percepção de quantas pessoas é que estão numa zona. É também um excelente meio até para dar alertas, para prevenir quando se perde comunicações numa determinada região, para fazer o acompanhamento do incêndio. Existe muito menor risco em fazer isso com um drone do que uma aeronave tripulada.
Nós, até a nível de projetos europeus, já fizemos desenvolvimento de algoritmos com câmaras multiespectrais que permitem fazer um mapeamento durante o incêndio. Ou previamente perceber o risco associado de incêndio numa dada localização. Há projetos mais complexos, que apenas fizemos testes, mas, por exemplo, largar granadas de materiais químicos para extinguir fogos. Um drone podia fazer, de forma automatizada, monitorização de áreas que se considerassem com maior risco e se detetasse um fogo numa fase inicial poderia atuar.
Os drones podem ser uma solução, ou pelo menos um grande apoio, em situações de catástrofe, sejam tempestades ou incêndios. A Beyond Vision conseguiu dar uma resposta à altura no caso das tempestades, sem preparação nenhuma e com drones feitos praticamente com remédios. Haver algo planeado e estruturado fará uma diferença enorme.
O valor acrescentado dos drones da Beyond Vision está no software?
Sim. Nós começámos pelo software e é claramente um fator diferenciador. Nós temos equipas de desenvolvimento de software, robótica e algoritmos para casos concretos. Conseguimos, por exemplo, que um drone seja totalmente autónomo para fazer uma inspeção em postes de média e alta tensão, embora a regulamentação portuguesa muitas vezes não permita que seja operado. Na Alemanha, já o fizemos. O drone fazia toda a inspeção sozinho, detetava problemas na rede e alertava. Em Portugal, trabalhámos com a Brisa em integrações de informação na cloud.
Esse software não funciona só com os nossos drones, funciona em todos os veículos não tripulados. São câmaras no solo e outros sensores que agregam toda a informação. Depois temos os nossos algoritmos que trabalham as informações dos vários sensores, que ficam num único local. E isso facilita a tomada de decisões. As informações podem ser integradas com os sistemas das empresas para fazer gestão de dados. Nós usamos a inteligência artificial em muitas áreas. Para os Emirados, desenvolvemos um algoritmo de inteligência artificial para conseguir analisar em tempo real imagens de muito elevada resolução e fazer deteções, no caso, de animais.
Nós temos o controlo de ponta a ponta das nossas aeronaves. Desde o desenho ou conceptualização da aeronave, à produção e depois a parte de software. Entregamos o produto como um todo final. Conseguimos fazer alterações em vários componentes, na eletrónica ou, se houver necessidade, no software. Temos toda essa capacidade.
Têm atualmente uma unidade de produção em Alverca. É suficiente?
No ano passado, abrimos um espaço em Alverca, de quatro mil metros quadrados, de produção e desenvolvimento. E temos planos de expansão em Alverca. Este ano, vamos abrir um escritório em Oeiras e estamos a estudar novos passos em Portugal. Temos escritórios em Aveiro e no Porto. Abrimos um escritório em Guarulhos, no Brasil, e temos planeada a expansão para os Estados Unidos, como já falámos.
Essa expansão vai ser acompanhada por um crescimento de recursos humanos?
Este ano, devemos duplicar praticamente. O objetivo é fechar o ano com cerca de 250 pessoas. Esta é uma área que não só requer pessoas muito qualificadas, requer pessoas qualificadas de muitas áreas. Temos engenheiros mecânicos, aeroespaciais, de eletrónica, civis, químicos. Requer muitos domínios da engenharia.
Têm uma política muito ativa de investimentos. Quanto é que já aplicaram na empresa?
Nós tipicamente investimos tudo. Em Alverca, investimos cinco milhões de euros. Nunca fizemos distribuição de dividendos e continuará a ser assim nos próximos anos. Queremos crescer muito nos próximos cinco anos.
Qual é o plano?
Posso dizer que vamos duplicar a nossa capacidade anualmente nos próximos cinco anos. Isso dará um crescimento exponencial quer na faturação quer nos recursos humanos. A produção atualmente varia muito com a procura, mas conseguimos produzir uma centena de drones por mês. E essa capacidade pode ser escalada. Estamos agora nos Estados Unidos e Brasil e estamos a analisar vários países europeus, como Espanha, Polónia, Alemanha. A União Europeia tem todo um sistema de procura muito fragmentado e existe sempre uma grande preferência para comprar nacional em áreas como a defesa. Por isso, existe a necessidade de estarmos presentes em vários países.
Quanto é que faturaram em 2025?
Perto de 15 milhões de euros. Crescemos mais de 700% face a 2024. Um dos fatores para este crescimento foi, sem dúvida, a área da defesa. Este setor tem tido muitos investimentos e estima-se que continue até 2030. No ano passado, a defesa pesou mais de 70% na faturação.
Teve lucros?
Historicamente tivemos sempre lucro. Temos tido um crescimento sustentável.
Este ano será mais um ano de crescimento?
Temos boas perspectivas. Prevemos uma faturação entre 20 a 30 milhões de euros. O setor da defesa continua em grande crescimento e iremos continuar muito ativos nesta área. Estes investimentos que estão a ser feitos na defesa devem realmente ser vistos como investimentos, ou seja, a tecnologia dos drones tem um potencial para a economia nacional e europeia brutal. Podemos capitalizar este investimento para aumentar a produtividade na Europa, que é uma coisa que temos deixado cair nas últimas décadas, sobretudo em comparação com os Estados Unidos e a China. Para isso acontecer, muita da regulamentação tem que ser facilitada. Muitas das operações de drones no setor civil que não se fazem hoje em dia na Europa têm que ser descomplicadas. É preciso permitir que elas aconteçam, porque isso vai reduzir muitos custos, por exemplo, na área da energia. Falo desta área, mas posso falar em dezenas de outras áreas em que os drones poderiam trazer grandes mais-valias económicas. Para termos retorno desse investimento, temos que pensar pelo menos a médio prazo. Nestes períodos de guerra e defesa, tende-se a fazer grandes evoluções tecnológicas, que depois são utilizadas no setor civil. É o caso da internet.
Voltou a apontar a regulação como um entrave. Quais são os constrangimentos?
A possibilidade de voo é a primeira. Nós temos muita dificuldade, e dou muito enfoque nisto, em conseguir ter autorizações de voo da ANAC [Autoridade Nacional da Aviação Civil] para operar no setor civil. É dito que temos que preencher alguns formulários e que vamos conseguir as autorizações. Tivemos uma situação com o parceiro Altice em que contabilizámos as horas que utilizamos para responder à regulação. Foram mais de mil horas de pessoas empenhadas a trabalhar nisso. Só para conseguir autorizações e não conseguimos. É uma ineficiência enorme.
Nós temos todo o interesse em trabalhar com a ANAC para Portugal ser um país de referência e pioneiro no setor. Temos muito boas empresas de drones mas, quando se vai ver, as operações feitas cá continuam a ser escassas.