A todas as Margaridas do mundo

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A Margarida deu algumas vezes aulas ao meu filho com o bebé dela ao colo. Era ela de um lado com o bebé e eu do outro com o meu filho. Foram horas e horas disto. Estreitámos uma relação para a vida, eu e a Margarida: o que passámos juntas nas trincheiras do ensino à distância não se conta, vive-se. A Margarida, na batalha das aulas quando o ruído aumentava e o desespero nos começava a arranhar a coragem, mantinha a serenidade contra toda a lógica do mundo. "Vá, minhas pestes, agora pouco barulho e desliguem o som, sff. Já ninguém mostra mais nada." Dizia isto num tom maternal e firme, naquele timbre certo que revela autoridade. A estratégia de ataque das crianças é de uma complexidade notável: elas começam por mostrar um desenho - só um, depois vem o cão, depois o coelho, depois é só contar uma coisa, até que, sem darmos conta, a destruição da aula e a derrota estão iminentes. Mas a Margarida vê mais longe, conhece a tática do inimigo e, num contra-ataque sereno, neutralizava as pestes e encorajava as tropas (nós, pais) a não desistirem. A Margarida consegue calar as duas dezenas de crianças apenas abrindo os olhos por detrás do computador. Quando eles se calam ela sorri e continua a aula. E às vezes faz isto com o bebé ao colo, desafiando o perigo e sem que escorra pela sua testa uma gota de suor.

Vocês não fazem ideia do que se passa numa sala de aula. Eu não fazia. Ensinar crianças a ler, a escrever, os acentos, a multiplicar, pesar e medir é uma arte. Uma arte e uma ciência. Há ali muito de vocação, de sensibilidade, de talento - como na música ou na dança - , mas existe também muito conhecimento, teoria e lógica, como na Física. Eu bem tento ensinar coisas ao meu filho - tentei ensinar todos - mas sem sucesso. Tudo o que eles aprenderam, aprenderam apesar das minhas tentativas. Não tenho talento nem sabedoria. Nem paciência, nem coragem. Nada. Sou uma simples e comum mãe. E é por isso - e aqui me confesso com vergonha - que muitos dos trabalhos que o meu filho fez, não foi ele quem os fez, fui eu.

Sim, Margarida, sou uma espécie de agente duplo das aulas à distância. O inimigo. E tudo por cobardia: não tive coragem de lhe enviar textos com palavras que começavam com ç, contas com resultados estapafúrdios, adjetivos que são nomes comuns, frases exclamativas que são imperativas. Assim com as perguntas de interpretação que ele não interpretou. Enfim, faltou-me a coragem que lhe sobra. Também as aulas de ginástica a que faltámos, as de música e artes a que não fomos: fui eu. Foi por minha culpa, pois já não aguentava mais as trincheiras do zoom e a artilharia do teams e só o queria calado a ver televisão. Já agora, diga à professora de Inglês que ele não sabe a diferença entre can e can"t (que diz caunt): fui eu que fiz aquelas páginas do livro.

Segunda-feira acaba esta vida dupla e entrego-lhe o meu menino. Estragadinho. Percebo se não me perdoar. Mas até daqui a um mês, até ao próximo confinamento, em que prometo deixar a câmara e o som ligados. Sem medo.

Jurista

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