Além dos evangélicos furiosos, dos terraplanistas alucinados, dos generais de pijama e dos Chicago Boys fanáticos, o heterogéneo governo Bolsonaro tem ainda uma quinta face, menos explorada mas talvez ainda mais danosa para o Brasil, que é a turma do Duda.
A turma do Duda são os amiguinhos de adolescência de Eduardo Bolsonaro, o terceiro filho do presidente, membro do diretório tropical da alt-right norte-americana, ex-futuro embaixador brasileiro em Washington e admirador confesso da tortura e da censura impostas pela ditadura militar.
Dois desses amiguinhos tiveram uma semana em cheio.
Um deles foi Gustavo Montezano, jovem banqueiro de 39 anos, a quem foi oferecida a presidência do BNDES, banco de desenvolvimento estatal, em junho passado.
“Esse garoto que está aí eu conheço desde piá [criança], lá na Dona Maria, do 71 [condomínio onde viveu a família Bolsonaro]. É amigo dos meus filhos. Essa juventude merece respeito”, disse Jair Bolsonaro no dia da posse.
Apesar do entusiasmo presidencial, Montezano foi descrito logo nessa altura pela imprensa como um playboy festeiro.
Foi até recordado o episódio em que provocou “cenas similares a um arrastão”, segundo um juiz, ao derrubar dois portões do seu condomínio, acompanhado “por mais 30 amigos com bebidas alcoólicas”, entre os quais Duda Bolsonaro, “e até garçons contratados”. Pagou à volta de 8,5 mil euros ao condomínio e não se falou mais nisso.
No últimos dias do mês passado, entretanto, soube-se que uma auditoria às contas do BNDES, pedida por Bolsonaro ainda em campanha para descobrir supostas trafulhices feitas no banco pelos governos do PT, não descobriu ilicitudes. Pior: custou 48 milhões de reais [perto de 11 milhões de euros] aos contribuintes brasileiros.
“Chegou a 48 milhões de reais no final. ‘Tá errado, ‘tá errado”, admitiu Jair Bolsonaro. “Há coisa esquisita aí. Parece que alguém quis rapar o tacho. É o garoto lá, que por coincidência conheço desde pequeno, que é presidente do BNDES”, balbuciou em seguida o presidente, provavelmente já com menos respeito por essa juventude do condomínio Dona Maria, do 71.
Outro membro da turma do Duda é Vicente Santini, próximo do clã presidencial desde moleque por ser também filho de militar.
Santini chegou ao governo em março, para ocupar a posição de número dois da Casa Civil, cujo número um por tradição funciona como uma espécie de primeiro-ministro do país. Antes e depois da nomeação, as redes sociais dele e da mulher estavam inundadas de momentos de intimidade com Duda e restante turma.
Até Jair Bolsonaro, na semana passada, descobrir que Santini usou um jato da Força Aérea Brasileira pago pelos mesmos contribuintes que compraram a auditoria milionária ao BNDES para ir a Davos, na Suiça, e daí para a Índia.
“É inadmissível”, disse Bolsonaro, pressionado pela divulgação do escândalo no jornal O Globo.
Dias depois, no entanto, Duda intercedeu junto ao pai (que por acaso é presidente da República) a favor do amiguinho. E Santini foi reintegrado na Casa Civil, numa função diferente, mas com salário idêntico.
A imprensa, que por alguma razão Bolsonaro odeia, descobriu o esquema e lá foi Santini despedido pela segunda vez em 48 horas.
E Montezano e Santini são apenas os membros da turma sob holofotes desta semana.
Há mais elementos da “juventude que merece respeito” no governo, como Jorge Francisco, amigo de infância de Duda nomeado para a secretaria-geral da presidência.
Ou como Filipe Martins, o principal assessor da política externa de um governo que num ano criou atritos com França, Alemanha, Noruega e mais meio mundo, por causa da questão amazónica, Israel e Palestina, por causa da transferência frustrada da embaixada para Jerusalém, com o Irão e restante mundo árabe, com a China, e por aí vai.
Ou como Léo índio, primo direito dos manos Bolsonaro, cuja função no Planalto, onde trabalha ao lado do presidente, é caçar comunistas – o que, na conceção do governo, pode incluir até cerca de metade da população mundial.
O bolsonarismo que assola o Brasil não é, portanto, apenas constituído por evangélicos furiosos, terraplanistas alucinados, generais de pijama e Chicago Boys fanáticos. Há que ter cuidado com a turma do Duda.
São Paulo