A conceituada revista The Economist apelidou em 2017 o conceito de big data, isto é, as grandes quantidades de dados, como o novo petróleo. Surgiu, então, a disciplina data science que serviria para estudar, analisar e validar os dados realmente importantes. Entretanto, os data scientists estão a transformar-se numa das profissões de maior futuro nesta nossa era tecnológica. Na verdade, os cientistas dos dados são hoje peça fundamental nos grandes gigantes do consumo, da distribuição e do entretenimento. A sua função: gerar perfis de comportamento, adivinhar vontades, desejos e anseios, e desenhar necessidades ainda desconhecidas dos próprios clientes.
Ora, também a administração pública mundial trilha este caminho. Leia-se atendendo às evidentes diferenças: permitir o tratamento de dados disponíveis nos inúmeros serviços públicos para uma maior transparência, eficiência e eficácia. Até porque nunca falamos de dados pessoais, mas de informações às quais os cidadãos têm o direito de aceder numa democracia plena. De resto, o mercado dos dados abertos, ou seja, efetivamente acessíveis, verdadeiramente franqueados em tempo real e realmente passíveis de serem trabalhados em rede, poderá atingir os 100 mil empregos na Europa agora em 2020. Um disruptivo universo que poderá valer um total de 76 mil milhões de euros.
Todavia, e contestando outras métricas dentro do espectro da digitalização da economia onde damos cartas, Portugal surge como o quarto país europeu com a pior estratégia na administração pública, assegura o Portal Europeu de Dados. Pior: somos a única nação num total de 30 que ignora o impacto positivo do livre acesso aos dados na competência governativa. Desprezando paralelamente a interoperabilidade, a ideia de cidadania, a melhoria dos serviços, os contributos da sociedade, a viabilização de negócios ou a otimização de recursos.
Veja-se, e de acordo com a informação veiculada pelo GovLab, o exemplo do governo dinamarquês que ganhou entre 2005 e 2009 cerca de 62 milhões de euros – para um investimento de apenas dois milhões de euros – ao abrir todos os dados referentes à propriedade. A política de dados aberta fomenta igualmente a participação de entidades externas, da sociedade civil e do cidadão comum. Refira-se um caso português reconhecido pela Comissão Europeia: o fogos.pt que cruza num mapa os dados da proteção civil sobre as ocorrências, meios de combate e risco de incêndio.
Boas práticas, essas, que deverão guiar o Ministério da Modernização Administrativa, a Secretaria de Estado da Transição Digital ou a Fundação para a Ciência e Tecnologia na delineação, construção e execução de uma estratégia de dados abertos. Um programa que contemple plataformas de dados, a publicação de código de fonte aberta e legislação vinculativa à divulgação de dados, etc. Colocando Portugal na vanguarda em policy making.
José Pedro Salas Pires, Presidente da ANETIE