A vergonha de quem conta

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A divulgação de documentos oficiais "é crime". A gravação à socapa e posterior transmissão de conversas nos bastidores do Parlamento é "inaceitável" e "uma violação flagrante dos direitos e liberdades". As "fugas de informação seletivas" têm potencial de estragar os planos do governo e lesar os interesses do Estado. Escandalizam-se agora os protagonistas dos episódios kafkianos da semana (os de sempre, na verdade) por lhes ser descoberta a careca.

Esquecem-se, porém, que foram eles os mestres desta forma de fazer as coisas. Foi com estes governantes socialistas que os restantes atores políticos e da sociedade em geral aprenderam que recorrer a golpes é fórmula que entrega resultados num país que, às mãos deles, se tornou num pandemónio, onde não há vontade nem interesse em construir coisa alguma e a sobrevivência individual é o derradeiro motor. Fazem ainda por esquecer que esses crimes que os magoam são apenas o veículo para denunciar práticas bem piores, reveladoras da impunidade a que acreditam ter direito. Como sonegar informação a órgãos aos quais há obrigação de a prestar, como prestar falsas declarações e ser sucessivas vezes apanhado na mentira, como desrespeitar instituições, como destruir sem contemplações o que tem valor e cria riqueza para o país, como arrastar pela lama reputações alheias e atirar areia para os olhos dos eleitores. Como acreditar que a lei é só para os outros, os que não fazem parte do grupo que se nomeou elite governante e se agarra ao privilégio custe o que custar aos demais.

É este desgoverno que nos presenteia com episódios inéditos como demissões em direto pela televisão para as quais só depois se tenta encontrar justificação legal - e que se preocupa apenas com o facto de isso ser revelado, sem perder um minuto a fingir-se envergonhado pelo seu comportamento. É esta corte que não se coíbe de destruir instrumentos competentes e criadores de valor - do SEF ao Alojamento Local, passando pela ruína apadrinhada de setores como a agricultura ou a saúde - para se desresponsabilizar de problemas que criou, deixou crescer ou alimentou. É esta maioria que não tem pejo em distribuir cheques de 125 euros para "ajudar" a combater a inflação enquanto recolhe, pelo terceiro ano consecutivo, a maior receita fiscal alguma vez cobrada aos portugueses. É este o coletivo que ora corta pensões, nega aumentos salariais e se recusa a perder um cêntimo em impostos ora abre os cordões à bolsa apontando à ilusão dos eleitores perdidos, sacrificando os argumentos de sobrevivência das contas públicas à necessidade individual de travar a sangria de votos revelada a cada nova sondagem.

Não há cautela orçamental ou empenho no objetivo de deixar Portugal livre para respirar sem se ver permanentemente limitado pelo garrote das metas europeias - que Medina tem prosseguido e com resultados - que resista a esta destruição. E mesmo essas conquistas não tardam a ser postas no prego, se o recuo nas pensões, na função pública e no IVA não chegarem para amansar o descontentamento português com este "socialismo".

Quem vai pagar a fatura das ruínas de Costa quando os nossos melhores tiverem fugido todos e os que nos procuravam encontrarem poiso mais credível e estável?


SOBE: Rui Diniz, CEO da CUF
Consciente de quem faz a casa e também conhecendo as dificuldades que o último ano trouxe a muitas famílias, entre a escalada da inflação e a subida dos juros do BCE, a CUF decidiu partilhar os ganhos obtidos com os seus colaboradores, distribuindo prémios salariais que resultam num aumento de quase 10%. Num país em que se dispara a todo o momento sobre a iniciativa privada, vale a pena ver as diferenças de tratamento dado aos profissionais de saúde que não estão na folha de pagamentos do Estado. Talvez se perceba, com estes exemplos, que a realidade do setor privado não é bem o quadro que demasiadas vezes se pinta - e se entenda melhor as razões que levam tantos a fugir de um SNS onde a tutela só lhes diz que têm de ser "resilientes", como fazia Marta Temido, a coveira das PPP na saúde.

DESCE: Maria do Céu Antunes, ministra da Agricultura
Todo o reinado desta ministra dava um tratado do comportamento que não se recomenda a um governante. Mas António Costa insistiu em reconduzi-la na maioria absoluta e nem dá sinal de se sentir abalado com as sucessivas argoladas e desconsiderações a que vota aqueles pelos quais devia falar. Agora, os agricultores disseram basta. E pela primeira vez na história não há um só governante convidado para aparecer na maior feira do setor a sul. A Ovibeja contará com a presença do Presidente da República, de deputados de todos os partidos e outros representantes institucionais, mas nem primeiro-ministro nem ministra da Agricultura nem qualquer outro membro deste Executivo recebeu convite. Louva-se a coragem do setor, lamenta-se a total falta de sentido de Estado e de responsabilização política que conduziram a esta decisão final.

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