Não é que a CES seja conhecida por dar um grande foco às telecomunicações e dispositivos móveis, mas esta componente tinha sido bastante mais visível em anos anteriores. O 5G apareceu revestido de promessas de revolução, capaz de mudar tudo na saúde, educação e indústria.
Mas com uma economia global aos solavancos e diferentes ritmos de implementação, a tecnologia deixou de estar na linha da frente. As empresas parecem mais interessadas em explorar Inteligência Artificial, visões do metaverso e modelos de trabalho híbrido. Há uma espécie de pausa no surgimento de novas aplicações e casos de uso para a tecnologia. Mesmo em termos de publicidade, há uma quebra notória no tema.
É assim que chegamos ao Mobile World Congress (MWC), que decorre esta semana em Barcelona. O regresso de um dos eventos tecnológicos mais importantes do ano de forma plena, após os cancelamentos e adiamentos da pandemia, dará palco à revitalização do entusiasmo em torno do 5G, agora com foco na sua rentabilização. Os dados da S&P Global Market Intelligence indicam que, no final de 2022, cerca de 238 operadores móveis tinham lançado serviços comerciais de 5G em 94 mercados. Como é que, num momento em que as empresas se debatem com a incerteza e os consumidores apertam o cinto, o investimento poderá ser monetizado?
Esse é um dos debates que teremos em 2023, com muitas empresas focadas em explorar ideias no MWC. A Ericsson, que abriu o congresso com uma keynote do CEO Börje Ekholm, apresentou uma imagem favorável do papel da tecnologia no mundo. Ekholm disse que o 5G vai impulsionar ainda mais a digitalização e a economia de aplicações e que a conectividade é "uma necessidade humana básica."
Para a GSMA, que organiza o MWC, o tema é acelerar a monetização das redes e o seu desenvolvimento, através de software e inovação digital. E embora parte da conversa já seja sobre o 6G - um "caminho evolucionário" natural - o foco estará na demonstração de casos de utilização real de 5G que demonstrem a diferença em relação a todas as gerações móveis anteriores. De particular importância será também a visão de um 5G que surge como alternativa a acessos fixos de conectividade.
Foi com a tecnologia em mente que o presidente da Huawei Carrier BG, Li Peng, falou na sua apresentação no congresso. Peng falou de "reimaginar o negócio 5G", reforçar a sua cobertura e "reinventar" as tecnologias associadas. O executivo também apelou à indústria para que coopere de forma a "acelerar a prosperidade do 5G." E ainda falou da evolução para a geração 5.5G, que será "mais rápida, mais automatizada, e mais inteligente" que o 5G, suportando também mais frequências.
É inerente à indústria estar sempre à procura da próxima grande coisa e olhar continuamente para o futuro, daí este "buzz" que começa a surgir em torno do 5.5G e do 6G. Mas mesmos os números mais estonteantes de velocidade e capacidade são incapazes de entusiasmar para lá da conversa inicial. Afinal, para que serve este salto se os consumidores estão a fazer coisas semelhantes com os smartphones e as empresas não passam das provas de conceito?
Está mais do que na altura de virar este holofote para aplicações realmente inovadoras, que justifiquem o investimento maciço que está a ser feito em implementações 5G desde 2019.