Se há um ano nos dissessem que Mark Zuckerberg ia lançar uma nova rede social e milhões de pessoas se atirariam a ela como gato a bofe, começávamos a rir em Belém e não parávamos até Cascais. Zuckerberg passou os últimos anos a ser vilipendiado pelos vários desastres da Meta e a gestão duvidosa de duas das redes sociais mais usadas no planeta, Facebook e Instagram. Entregar mais ouro ao bandido não estava no cartão de bingo de ninguém, mas aqui estamos.
Zuckerberg lançou uma concorrente directa do Twitter, Threads, a 06 de Julho e em menos de cinco dias já chegou aos 100 milhões de utilizadores. É agora a aplicação com o crescimento mais rápido da história, e tudo leva a crer que de forma orgânica. Dá-me ideia que, em menos de nada, todos os meus contactos dentro dos Estados Unidos - suponho que chegará a Portugal em breve, sem necessidade de truques - estão na rede e a publicar constantemente. Já estou a ver publicações sobre como ser a próxima estrela da rede social, aproveitando que nestes primeiros tempos o campo está nivelado.
E a reacção de Elon Musk, agora auto-proclamado rival de Mark Zuckerberg, mostra que a ameaça ao Twitter é existencial.
Menos de dez meses desde que Musk decidiu rebentar com a sua reputação e assumiu o controlo do Twitter, a deterioração emocional do homem mais rico do mundo está a acelerar. Não só ele desafiou Mark Zuckerberg para um combate corpo-a-corpo (que Zuck, incrivelmente, pareceu aceitar) como agora está numa espiral de loucura que só os sicofantas podem tolerar.
Perante o sucesso esmagador da Threads, Musk propôs um concurso de medição dos órgãos sexuais entre ele e Zuckerberg; também lhe chamou um nome bastante depreciativo que em linguagem informal significa um homem fraco que é traído pela mulher.
Ler os tweets de Musk, neste momento, é exercitar a suspensão da descrença e repetir vinte vezes "isto é real?", porque é difícil encaixar que um homem tão poderoso, que lidera empresas tão incríveis como a Tesla e a SpaceX, esteja realmente obcecado com redes sociais e a responder a trolls a cada cinco minutos com "memes" e insultos.
A gestão do Twitter é tão terrível e a plataforma tornou-se numa tal latrina que a alternativa criada por Zuckerberg começou a parecer apetitosa. Quando se tem fome, até pão duro sabe a pitéu. Porque, convenhamos, já sabemos do que gasta a casa da Meta; se as políticas de privacidade e a desinformação suscitaram dúvidas e geraram problemas no passado, é provável que a fórmula venha a repetir-se agora. Mas Zuckerberg deu a volta ao texto; a sua vingança é esta rede social, servida com requintes de gaspacho.
Podemos questionar porque é que tanta gente saltou de cabeça para a Threads. É mais uma aplicação para nos consumir tempo e manter agarrados aos ecrã do smartphone. É mais um sorvedouro de alma onde podemos ir discutir com estranhos o dia todo sem chegar a lado nenhum. Mas é também uma forma de socialização digital diferente.
Percebi isso ao seguir as contas que já seguia no Instagram; o conteúdo é diferente, a postura é diferente. O sucesso imediato da Threads comprovou a apetência por este preciso estilo de rede social, com mensagens (mais ou menos) curtas, em formato SMS, com uma cronologia que está sempre a ser actualizada ao segundo. Não é preciso fazer curadoria de carrosséis de fotos nem aprender coreografias para fazer um Reels ou TikTok. É apenas disparar texto, e há quem encontre a sua melhor versão nesse formato.
Infelizmente para Elon Musk, tenho grandes dúvidas de que o Twitter sobreviva no longo prazo. Linda Yaccarino foi explodir a sua carreira ao aceitar o cargo de CEO deste barco a naufragar com um capitão mercurial que faz exactamente o contrário do que apregoa. Liberdade de expressão? Só para os que dizem o que ele gosta. Comédia? Só se não for a gozar com ele. Doxing? Sim, se for dos seus inimigos.
Uma rede como o Twitter só resiste se tiver valor para os utilizadores, se houver trocas estimulantes de ideias e discussões dentro de parâmetros mínimos de socialização. Percebi que a coisa estava rapidamente a caminho do chão quando comecei a ver sobretudo anúncios da igreja da Cientologia, algo que nunca tinha visto em anos e anos de utilização. São já as raspas dos anunciantes. Deve faltar pouco para nos aparecerem os professores Mambo Jambo que fazem "trabalhos" e limpezas de auras.