Access Lab. Planos 360 graus que tornam a cultura inclusiva

Startup nasceu do sonho de uma sociedade mais equitativa e já garantiu a acessibilidade de pessoas com deficiência em grandes eventos culturais.
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O acesso ao entretenimento não pressupõe, à partida, qualquer tipo de obstáculo. Porém, quando considerados os quase 1,8 milhões de indivíduos com algum tipo de incapacidade em Portugal, segundo dados dos Censos 2011, a realidade já não é a mesma. E embora a inclusão seja cada vez mais praticada pelas empresas e instituições públicas, "é preciso mais", defende Tiago Fortuna, cofundador e CEO da Access Lab, startup portuguesa que se dedica a garantir o acesso de todas as pessoas com deficiência e surdas à cultura. "Salas, festivais, eventos e empresas têm o dever cívico de criar planos de acessibilidade e inclusão", vinca o diretor executivo, em conversa com o Dinheiro Vivo.

Neste caminho para a diversidade, promotores de espetáculos e eventos e gestores de equipamentos culturais podem contar com a ajuda da jovem empresa, especialista em elaborar "planos 360 graus, que trabalham a jornada do consumidor". A consultoria é feita de ponta a ponta, passando pela comunicação e suportes, políticas internas e de bilheteira, acessos físicos e recursos de programação.

Os serviços disponibilizados, pelos quais é cobrada uma quantia variável consoante horas de consultoria, formação e adjudicação de serviços externos de acessibilidade (como intérpretes de língua gestual ou técnicos de acessibilidade web), podem ser empreendidos tanto em projetos de longo prazo, como em eventos com data marcada, em qualquer altura do ano, por todo o país. O único requisito "para entregar qualidade" é ter, pelo menos, 45 dias de trabalho, uma vez que "a criação de acessibilidade plena envolve vários departamentos de uma organização e fazê-lo requer o seu tempo", explica o CEO.

Apesar de este poder ser um processo complexo e moroso, devido aos custos associados e à disponibilização dos recursos, "a abertura do mercado e a exigência por parte do público" tem permitido à Access Lab avançar na sua missão, nota a também cofundadora do projeto, Jwana Godinho. Desde que foi fundada, em fevereiro deste ano, a startup já trabalhou com oito clientes, que implementaram os seus serviços e, através deles, impactaram já mais de mil pessoas com algum tipo de incapacidade. São eles Altice Arena, Meo Blueticket, Câmara Municipal de Lisboa, Fundação Galp, Santa Casa Alfama, MIL, Iminente e Festival Política.

Outros segmentos, como a mediação de públicos, aproximação à comunidade e profissionalização do setor, são trabalhados. Com a falta de literacia para a inclusão a representar "o maior obstáculo do mercado português", a Academia Access Lab compromete-se a capacitar o staff das empresas, através de planos criados em conjunto com especialistas - que já chegaram a 100 profissionais. Já no lado da filantropia, o tempo é dedicado a desmistificar noções associadas à deficiência e a reunir periodicamente com instituições públicas, governamentais, partidos políticos e associações que representam as pessoas com deficiência e surdas.

A decisão de criar uma empresa, e não uma associação, derivou do compromisso assumido pelos fundadores com o ecossistema da economia social. O objetivo levado a cabo é o de "reforçar a presença das pessoas com deficiência enquanto potência económica", destaca a empreendedora - e o balanço da operação supera expectativas. A taxa de retorno sobre o investimento - que incluiu capital próprio e o prémio do fundo +Plus (47 800 euros), atribuído pela Casa do Impacto - ultrapassa atualmente um milhão de euros.

Até 2024, Tiago Fortuna e Jwana Godinho não vão considerar a entrada de investidores externos no negócio. Para 2023, os planos da startup, alimentada por seis pessoas, passam por lançar pacotes de acessibilidade em função da dimensão do espaço e do público, bem como crescer 50% em número de clientes e faturação.

O maior desejo para o ano que se avizinha é que haja "coragem institucional" e que "os bons exemplos sejam replicados". No fundo, "responsabilidade pessoal e coletiva para a mudança", para que seja possível alcançar o sonho de uma sociedade mais equitativa.

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