Adeptos da semana de quatro dias querem atrair talento e evitar aumentos salariais

No universo de 1,3 milhões, só 30 manifestaram interesse em participar no piloto do governo, que arranca em julho de 2023. Secretário de Estado espera que o número aumente até final de janeiro. Mas há já empregadores a avançar por sua iniciativa com a experiência.
Publicado a

Reduzir o stress dos trabalhadores, atrair e reter talento e evitar aumentos salariais são os principais motivos invocados pelas cerca de 30 empresas que já manifestaram interesse em aderir à semana de quatro dias lançada pelo governo, que irá ser testada entre julho e novembro de 2023. O coordenador do projeto-piloto, Pedro Gomes, adiantou ao DN / Dinheiro Vivo que "das 30 empresas interessadas, 20 já participaram nas sessões de esclarecimento e as vantagens mais enunciadas passam por aliviar a carga de trabalho, melhorar a capacidade de contratação e encontrar uma alternativa aos aumentos salariais".

Do universo de 1,3 milhões de empresas existentes no país, 30 inscrições é um número insignificante, mas o secretário de Estado do Trabalho, Miguel Fontes, está otimista, uma vez que "vai ao encontro das expectativas do governo", afirmou ao DN /DV. "A meta é atingir um intervalo entre 30 a 50 empresas", acrescenta o governante. Para poderem participar no piloto, os empregadores devem preencher o formulário disponível no site do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) até final de janeiro. Até lá, Miguel Fontes acredita que irá haver mais interessados. Terminada esta fase, "em fevereiro, o governo vai começar a contactar as empresas que se inscreveram para verificar quais é que querem efetivamente participar na experiência", esclareceu o secretário de Estado.

Das empresas que manifestaram interesse, quase metade (14) são de pequena dimensão (entre 10 a 49 trabalhadores), nove são micro (com menos de 10 funcionários), quatro são médias (entre 50 a 249 empregados) e três são grandes empresas (com mais de 250 funcionários), revelou Miguel Fontes. Quanto aos setores de atividade, o secretário de Estado mostrou-se surpreendido com "a diversificação das áreas". E deu alguns exemplos: "Cinco empresas pertencem ao comércio grossista e retalhista; quatro são da área da arquitetura, engenharia e construção; quatro das tecnologias da informação; três da indústria; três de consultoria; e três da contabilidade e serviços jurídicos".

A Simoldes, que se dedica ao fabrico de moldes de injeção para a indústria de plásticos, é a única empresa que publicamente já anunciou que vai entrar no teste da semana de quatro dias. O DN / Dinheiro Vivo tentou saber quem são os outros empregadores que aderiram, mas a lista permanece sob sigilo dentro do governo e só será divulgada no final de janeiro ou início de fevereiro. Questionadas, a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição e a Associação Empresarial de Portugal afirmaram que não têm conhecimento de algum associado que se tenha juntado ao projeto do governo. Insistindo individualmente junto de algumas empresas, o DN / Dinheiro Vivo soube que o grupo Jerónimo Martins, dono do Pingo Doce, a Worten, que pertence à Sonae, e a EDP não se inscreveram na semana de quatro dias.

Até ao momento, já foram realizadas três sessões de esclarecimento online, em novembro e dezembro, estando previstas mais duas para 6 e 20 de janeiro. Contudo, "não é obrigatório assistir para as empresas se poderem inscrever no programa", ressalva o economista Pedro Gomes. "E, em qualquer fase do piloto, é sempre possível desistir", vinca o coordenador do projeto que tem um orçamento de 350 mil euros para financiar os acordos a celebrar com a Universidade de Londres de Birkbeck e com a Fundação 4 Day Week Global.

A experiência não pode envolver corte salarial e tem de implicar uma redução de horas semanais. Dado que o Estado não oferece contrapartida financeira, não será estipulado um número de horas semanais exatas, que podem ser 32, 34 ou 36, definidas por acordo entre a empresa e os trabalhadores. Isto significa, no segundo caso, um aumento da jornada diária em meia hora e, na última situação, de um acréscimo de uma hora por dia.

No final dos seis meses, em dezembro de 2023, está previsto um período de reflexão de um mês, em que o empregador vai fazer o balanço da experiência e determinar se vai manter a nova organização, voltar à semana de cinco dias ou adotar um modelo híbrido.

O projeto-piloto da semana de quatro dias continua a dividir opiniões. Sobretudo setoriais. A indústria e o turismo já deixaram claro que esta não é uma opção, enquanto nos serviços a medida vai conquistando novos adeptos. E há já empresas a avançar, por sua própria iniciativa, como é o caso da 360imprimir.pt, que adotou a semana de quatro dias em outubro. O modelo de 36 horas semanais, de adesão voluntária para os 180 trabalhadores desta que é a primeira gráfica online, vai estar em experimentação, num projeto-piloto, de dois anos. Sérgio Vieira, CEO da 360imprimir.pt, acredita que a medida, que se traduzirá numa redução de 17% dos dias de trabalho por ano e numa diminuição de 7% das horas trabalhadas, terá um "impacto positivo nas pessoas e no negócio, com um aumento na satisfação e bem-estar, sem prejudicar a produtividade e os nossos objetivos".

Mas, maioritariamente, as empresas em Portugal estão a optar, para já, por aprofundar as medidas de flexibilidade laboral, nomeadamente o trabalho em regime híbrido, como forma de permitir aos seus colaboradores uma melhor gestão do trabalho e da vida pessoal. "Mais do que na semana de quatro dias, a Bosch acredita na flexibilidade laboral que permite o equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal, seja no horário seja no local. Por isso, a empresa vindo a adotar um modelo mais flexível", diz fonte oficial da Bosch Portugal. A medida, designada por Smart Work, aplica-se apenas aos funcionários dos escritórios, ou seja, a cerca de 40% da força laboral do grupo, que contava, a 31 de dezembro de 2021, com 5788 pessoas. Os trabalhadores têm a possibilidade de gerir, em coordenação com as suas hierarquias, quando trabalham remotamente e em que dias vão para o escritório. Já antes da pandemia a Bosch permitia que os seus trabalhadores fizessem trabalho remoto dois dias por semana, mas a medida só ganhou adeptos a partir do confinamento.

Também a Siemens Portugal implementou o teletrabalho já em 2016, dando a possibilidade aos seus colaboradores de trabalharem a partir de casa até dois dias por semana. Mas o modelo evoluiu e hoje não há um limite predefinido de dias para trabalhar à distância, embora a recomendação da empresa é para que, em média, os colaboradores façam dois a três dias semanais em teletrabalho, dependendo do modelo de negócio da área em que estão integrados. A medida abrange os mais de três mil trabalhadores do grupo, com exceção daqueles cujas funções "requerem presença física permanente ou parcial nas instalações da empresa ou nos projetos dos seus clientes, como é o caso da fábrica e de algumas áreas de assistência técnica a equipamentos", especifica fonte oficial da Siemens Portugal. A empresa dá um apoio de 250 euros a todos os colaboradores para a compra de material de escritório e equipamentos informáticos, além de atribuir um apoio monetário mensal, em linha com a lei em vigor, para ajudar a fazer face a eventuais aumentos nas despesas domésticas.
Quanto à semana de quatro dias, a Siemens Portugal diz que "está a ser estudado", mas, "sendo um tema complexo", a empresa pretende "avaliá-lo através de equipas-piloto antes de definir (ou não) uma nova abordagem nesta matéria".

Na Worten, marca de retalho especializado do grupo Sonae, que conta com cerca de cinco mil trabalhadores em Portugal e Espanha, a diretora de Recursos Humanos, nês de Castro, diz que o work-life balance é um dos cinco pilares estratégicos da empresa, dispondo, por isso, de um "vasto programa" que promove a conciliação entre a vida pessoal e profissional. E que engloba iniciativas diversas como o Plano de Férias Worten, que dá direito a dois dias de férias extra por ano, o Trabalho Remoto, com dias no escritório e três à distância, ou o Flexiwork, que permite a flexibilidade de horário. Tudo isto em funções em que tal seja possível. Há ainda a licença sem vencimento Worten - que permite ao colaborador ausentar-se da empresa por um período de tempo, seja para estudar, viajar ou participar num programa de TV, "sem colocar em risco o seu posto de trabalho" -, a redução de horário, durante um período específico ou a título definitivo, se a função o permitir, e o programa Dias Extra, em que o funcionário pode tirar mais cinco dias de descanso, com o respetivo desconto no vencimento.

A empresa tem ainda um programa de incentivo aos estudos, com prémios anuais e bolsas. De todas as medidas disponíveis, o trabalho remoto é o "mais popular", diz Inês de Castro, que faz um balanço "muito positivo" destas iniciativas, que resultam num "forte espírito de equipa e orientação para os resultados sentidos pelo coletivo".

Já o grupo EDP implementou as Flex Fridays, medida de adesão voluntária e aplicável aos colaboradores com funções de trabalho compatíveis, que lhes permite adaptarem o seu horário semanal, de forma a desfrutarem da tarde livres à sexta-feira. Uma iniciativa que estava já em vigor em Espanha e nos Estados Unidos, mas foi, a partir de novembro, alargada a todas as geografias em que opera, abrangendo cerca de 60% dos trabalhadores do grupo.

Desde 2021 que a elétrica tem vindo a promover um modelo de trabalho híbrido, permitindo aos seus colaboradores trabalharem remotamente dois dias por semana. Para a EDP, estas medidas de flexibilidade laboral proporcionam um "maior equilíbrio e conciliação" entre a vida profissional e pessoal e assegura que os resultados do clima organizacional de 2021 "comprovam a experiência positiva": a produtividade percebida pelos colaboradores com funções compatíveis é de 96%, a eficácia na gestão de equipas é de 90% e a colaboração digital é de 94%.

Por seu turno, a Galp diz-se "atenta às tendências e dinâmicas do mercado", mas sustenta que o seu foco "continua a ser o aperfeiçoamento do modelo de trabalho híbrido", o qual prevê a possibilidade do teletrabalho até três dias por semana para pessoas cujas funções o permitam. Abrange entre dois mil e 2500 funcionários.

Na Natixis, o Centro de Excelência do Groupe BCPE, o trabalho híbrido existia já antes da pandemia, mas o confinamento forçado fez perceber a importância "do regresso a um formato que fomentasse o trabalho colaborativo", pelo que o trabalho presencial deve ocorrer oito dias por mês, sendo obrigatório, no mínimo, uma vez por semana. Este é o "dia da equipa", devidamente marcado pela hierarquia e em que todos os elementos marcam presença.

"Defendemos que o trabalho que se faz em casa é totalmente diferente daquele que se concretiza no escritório, pelo que é fundamental distinguirmos o propósito do trabalho remoto e do presencial", defende o diretor de Recursos Humanos da Natixis, sublinhando que, por isso, a empresa continua a apostar no desenvolvimento e expansão dos seus escritórios no Porto. Assim nasceram, explica, Maurício Marques, as villages, "um conceito inovador de espaço de escritório", espaços que recriam "várias cidades do mundo, oferecendo uma experiência imersiva - que inclui sons e cheiros - e afirmando-se exemplo pioneiro dos escritórios do futuro". O objetivo, diz, é que cada um dos dois mil colaboradores da Natixis no Porto, de mais de 30 nacionalidades, "possa usufruir dos novos escritórios pelo menos uma vez por mês, para que no final de cada ano tenha conseguido experienciar um dia de trabalho em cada uma das 12 cidades".

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt