"Adoro o cheiro a Web Summit pela manhã"

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No dia 3 de outubro de 2018, era esta a mensagem madrugadora do João Vasconcelos, juntamente com o hastag #websummitlisbonforever e um convite para o evento onde iria ser anunciado o acordo para que a Web Summit ficasse em Portugal até 2028.

Assim que rebentou a recente polémica sobre as declarações de Paddy Cosgrave, lembrei-me imediatamente desta frase e imaginei a reação do João nos primeiros minutos desta polémica. Muito provavelmente, seria um dos primeiros a demonstrar publicamente total solidariedade com o Paddy e a apresentar uma série de factos sobre o impacto que a Web Summit teve em Portugal. Falaria sobre o impacto na atração de investimento, no número de novas empresas criadas em Portugal desde 2016 e nas receitas geradas pelos gastos de milhares de pessoas que viajavam para Portugal durante as edições presenciais da Web Summit, muitas delas pela primeira vez.

E certamente falaria sobre o enorme orgulho que sentiu quando, em 2015, o Paddy anunciou que a próxima edição seria realizada em Portugal e que, pela primeira vez na história, os portugueses não tinham de sair do seu país para participar no maior evento de tecnologia do mundo. Ou o orgulho que sentiu quando, nesse mesmo ano, uma startup portuguesa ganhou o grande prémio da Web Summit.

E depois ia partilhar "estórias" incríveis sobre o "efeito Web Summit", como aquela de um casal, ele judeu e ela muçulmana, que se conheceram na primeira edição de Web Summit realizada em Lisboa, e que após se terem reencontrado na última edição decidiram casar e viver em Portugal, onde estão a criar a primeira Rural Startup Village.

Mas mais do que passado, o João estaria muito mais interessado em falar do futuro e, sobretudo, desta próxima edição da Web Summit, começando por dizer que a edição de 2023 vai bater o recorde de participação de startups e que, pela primeira vez, as principais atenções não vão para as Big Tech ou líderes mundiais, mas sim, para as startups. Depois falaria sobre os inúmeros side events e encontros improváveis que já tinha agendado, dando nota de que durante a semana da Web Summit vão estar em Lisboa mais de 800 investidores e 2000 órgãos de comunicação social de todo o mundo.

E antes da habitual mensagem "Let the games begin", iria deixar uma mensagem de agradecimento aos milhares de voluntários que asseguram a realização da Web Summit e outra de incentivo a todos as startups que participam pela primeira vez, dando nota da enorme responsabilidade pelo facto de representarem Portugal, do privilégio de terem sido selecionadas no meio de milhares de startups e que, muito provavelmente, esta semana vai mudar as suas vidas para sempre.

E durante a Web Summit não resistiria a dar conselhos a todos os empreendedores que se cruzassem com ele nos corredores da FIL, nem a tentar convencer investidores, empresas ou programas de aceleração a mudarem-se para Portugal ou, simplesmente, a resolver um "irritante" que impedisse alguém de participar numa das iniciativas.

E, no último dia da Web Summit, numa das muitas entrevistas que daria, ia destacar o facto de Portugal ter estado uma semana sob os holofotes da comunicação social de todo o mundo e que os portugueses tinham demonstrado, de forma exemplar, a sua capacidade em organizar eventos mundiais, destacando a forma calorosa como todos os povos e crenças foram recebidos em Lisboa, fazendo desta cidade uma espécie de capital das Nações Unidas durante uma semana.

Mas, de repente, fui interrompido por declarações e comunicados a lançar a dúvida sobre a realização da Web Summit, a destacar as salvaguardas contratuais no caso de o número de participantes ficar aquém do expectável, das auditorias no caso de esta realidade ser confirmada, que o pagamento de quaisquer verbas só será realizado após efetiva demonstração das despesas incorridas, que "o evento" poderá ser mais pequeno e que Paddy Cosgrave se tinha demitido.

Resta-me a esperança de que o sentimento de orgulho contagiante com que o João falava do seu país e da forma singular como recebíamos o mundo na Web Summit ainda esteja presente na memória de quem vai estar em palco no momento do encerramento desta edição. Se for o caso, nesses breves instantes, tentem imaginar o João, algures no Universo, a olhar para vocês com um sorriso e a aplaudir, dizendo, até para o ano, em Lisboa.

Obrigado, Paddy. #websummitlisbonforeverou #welcomewebsummitporto se preferirem.

Celso Guedes de Carvalho, empreendedor

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