Advogados juntos em palco virtual para ajudar famílias do audiovisual

Neste ano não há concerto ao vivo mas o Rock'n'Law não falha. Bandas tocam em modo virtual e fundos angariados vão ajudar técnicos, agentes e outros profissionais das artes que a crise deixou em dificuldades.
Publicado a

Se não há palcos para a música e a plateia está fechada a festas, há mais razões para cantar e tocar mais pessoas numa causa solidária. Mesmo que tenha de se fazer à distância e transmitir por via digital para assegurar a saúde pública. No ano de todas as restrições, cumprir o compromisso assumido pelo Rock'n'Law há 12 anos era ponto de honra. E com a solidariedade a falar mais alto, alguns dos mais proeminentes advogados do país nem hesitaram em abraçar a causa da União Audiovisual, grupo informal de profissionais deste ramo que se reuniu no início da pandemia para ajudar as imensas "dificuldades sociais, psicológicas, físicas e familiares", pelas quais muitos dos profissionais do audiovisual estão a passar.

E se neste ano não se pode reunir bandas e público numa sala, os concertos estão em palco virtual todos os dias às 19.00. Heróis del Despacho (Uría), Fora da Lei (PLMJ), The Walkers (Garrigues), Lawcura (SRS), Tier One Band (Morais Leitão), One Night Band (Cuatrecasas), Bandalhoca (VdA) deram já concertos digitais que podem ser revistos nas páginas das redes sociais do evento. E ainda pode contribuir para a causa.

"Sendo a solidariedade a essência deste projeto há 12 anos consecutivos, entendemos que num momento tão difícil como o atual não poderíamos faltar, mesmo que implicasse uma reformulação do próprio modelo do evento e com todas as dificuldades que isso poderia gerar", explica ao Dinheiro Vivo o promotor da ideia, Francisco Proença de Carvalho.

Dos idosos aos doentes de leucemia, passando pelos sem-abrigo e pelas mães solteiras, o evento já conseguiu centenas de milhar de euros para ajudar quem mais precisa na sociedade portuguesa. E se nunca é simples escolher quem apoiar, neste ano havia mais causas do que nunca a justificar o apoio do Rock'n'Law - concerto solidário que todos os anos por esta altura junta bandas constituídas por advogados de nove das maiores sociedades do país para angariar fundos para causas sociais.

"Infelizmente, não faltam pessoas que normalmente já vivem com muitas dificuldades e que foram acentuadas por esta grave e repentina crise", relata o sócio da Uría e baterista dos Heróis del Despacho, banda que conta ainda com Manuel Queiroz Ribeiro (voz e guitarra) e Daniel Proença de Carvalho (baixo), entre outros nomes que estamos mais habituados a ver ligados a outro tipo de casos de justiça. "Temos sempre projetos solidários meritórios que nos abordam para concorrerem ao nosso apoio e é sempre com um aperto no coração que temos de escolher uns em detrimento de outros. No entanto, nesta edição a escolha foi consensual", conta Francisco Proença de Carvalho. "Sabemos que estes profissionais tão importantes para a promoção da cultura e entretenimento têm elevada precariedade e, de um dia para o outro, tiveram uma redução drástica do seu trabalho e rendimento", justifica.

Sem espetáculos que puxem pelo setor e tragam trabalho aos técnicos, a esmagadora maioria deles sem vínculo profissional, tem cabido à União Audiovisual dar o apoio que não chega pelas vias oficiais a estas pessoas - artistas, técnicos de som e de iluminação, roadies, road managers, agentes, promotores, etc.. O grupo informal está neste momento a ajudar 250 famílias todos os meses, tendo inclusivamente criado uma estrutura para fazer recolha e entrega de comida a quem está em situação mais precária. A contribuição do Rock'n'Law, que tem uma vez mais o Alto Patrocínio do Presidente da República, será determinante para manter e até ampliar essa estrutura.

"Acredito que conseguiremos um donativo final para a União Audiovisual de pelo menos 45 a 50 mil euros", revela o advogado e responsável pelo evento. "Tanto quanto sei, representará o maior donativo alguma vez recebido pela União." E lança o apelo: "Esperamos, nestes últimos dias de campanha, que todos os que se quiserem associar a este projeto façam a sua contribuição através do site www.rocknlaw.pt ou das páginas no Facebook e no Instagram. O valor será integralmente destinado ao projeto da União Audiovisual com a Entrajuda", sublinha.

Claro que, dadas as restrições a que a pandemia obriga, neste ano o evento teve de ser totalmente repensado, mas nem isso desanimou os advogados-músicos, que perceberam que o formato digital não impediria que conseguissem uma quantia considerável para a causa - mesmo porque, à partida, as próprias sociedades organizadoras garantem generosos donativos. "Seja em que formato for, o que queremos é ajudar quem mais precisa e, independentemente das várias iniciativas próprias de solidariedade que as diferentes organizações têm, sabemos que em conjunto somos ainda mais fortes neste capítulo", diz o advogado, realçando "o extraordinário espírito solidário que estas sociedades concorrentes mantêm há anos".

Esse espírito levara já os escritórios a dar-nos música logo no primeiro confinamento, numa "iniciativa improvisada que surgiu de um dia para o outro" e que juntou o talento de advogados a alguns músicos profissionais, como a Lisbon Film Orchestra, protagonizando concertos nas redes sociais com o duplo objetivo de "incentivar a solidariedade das pessoas de uma forma criativa e dar alguns momentos de diversão e música aos portugueses confinados".

E há novas iniciativas a caminho depois deste palco virtual? "A iniciativa que mais desejamos é poder juntar novamente em 2021 (provavelmente no outono) as cerca de 2 mil pessoas na grande festa solidária habitual, para celebrar a vida e a ajudar quem mais precisa. Esse é o nosso desejo de evento para 2021 e tenho esperança de que seja possível um progressivo regresso à normalidade", confessa Francisco. Se não for possível, "encontraremos alternativas que nos permitam manter viva a chama solidária do Rock'n'Law.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt