À semelhança de várias indústrias e setores, do calçado ao turismo, da pedra ao têxtil, e do que outros países estão a fazer neste campo, está na hora de a agropecuária nacional e os seus produtos, de qualidade superior, apostarem em marcas fortes. Para isso será fundamental o desenvolvimento e afirmação da origem Portugal, enquanto expoente de inovação, excelência, hospitalidade e também de alta qualidade e consciência ambiental.
Portugal caracteriza-se pela elevadíssima qualidade e diferenciação de muitos dos seus produtos agroalimentares e também, por via dos ecossistemas de produção únicos no mundo, como o montado alentejano, pela incorporação da sustentabilidade como valor fundamental. Dada a sua dimensão e características, os produtos portugueses dificilmente competirão em quantidade ou preço na maioria dos casos e, assim, devemo-nos orientar para os nichos de alto valor acrescentado no mercado global e para as franjas de consumidores exigentes, que valorizam esses atributos.
Só desta forma será possível agregar e alavancar todos os ingredientes que compõem a gastronomia do país e torná-la apaixonantemente competitiva e diferenciadora nos mercados internacionais. Mais, sendo este um setor com um propósito cada vez mais ético e sustentável, chegou o momento de responder ao repetido apelo dos consumidores com esse selo de origem e autenticidade.
Por uma diversidade de razões, a agropecuária, uma indústria essencial à vida de todos nós, até pela sua preponderância na dieta mediterrânica - tida como a mais saudável e equilibrada -, e que vale mais de 3 mil milhões de euros em volume de negócios, tem ficado aquém daquele que é o seu verdadeiro potencial económico e reputacional. Afinal, o seu terroir, um território fértil, de clima temperado, uma longa costa marítima e uma tradição muito forte em torno da importância da alimentação e do próprio ritual familiar e social desses momentos, tem permitido absolutas maravilhas gastronómicas que resultam do que aqui é plantado, pescado, produzido e confecionado. Do prado ao prato.
A grande maioria dos produtores agropecuários está, hoje, particularmente empenhada em trilhar a rota da sustentabilidade, apostando em técnicas e tecnologias de vanguarda e respeitadoras do bem-estar dos animais. Essa é uma verdade incontestável. Porém, como acontece amiúde no país, num fenómeno de pouca valorização do nosso património latu sensu nos mercados internacionais, o agropecuário e também o agroalimentar continuam a debater-se com uma falta de estratégia unificadora em termos de "origem" e "marca" dos seus produtos e negócios.
"Uma marca é o conjunto de expectativas, memórias, histórias e relações que, juntas, respondem pela decisão de um consumidor escolher um produto ou serviço em detrimento de outro", assegura o ideólogo das marcas Seth Godin. Pois bem, sem dúvida, o segredo por trás de marcas fortes resulta de uma amálgama de valores de pertença que resumem e valorizam um produto, uma empresa, um contexto. Um bom exemplo disso, e que iremos debater na nossa conferência, a 27 de abril próximo, na 39ª Ovibeja, é o projeto artístico de internacionalização das pedras portuguesas, Primeira Pedra, que, através da criação de uma plataforma colaborativa de produtores do setor primário, pretende transmutar a perceção prevalecente de um setor que extrai e parte pedra para um outro que, a partir de matéria-prima de elevadíssima qualidade e por via do design nacional e internacional, acrescenta valor e produz obras de arte inesperadas e surpreendentes.
Isso leva-nos a outro ponto importante na criação e afirmação de marca, o propósito, profusamente abordado num estudo recente da Bain & Company. Segundo conclui a consultora global, "uma nova geração de marcas com propósito promete melhorar o mundo oferecendo aos consumidores opções de compra éticas e sustentáveis, mas o seu sucesso depende da escala." Ora, como se depreende facilmente, a indústria agropecuária cumpre todos estes requisitos; por um lado, tem escala e está já a implementar um ecossistema virtuoso e multidisciplinar de inovação - no caso do Monte do Pasto, corporizado no projeto Ethical Meat - rumo a um roadmap sustentável e de futuro das suas empresas e, por outro, trabalha para um consumidor exigente, sedento de experiências únicas e memoráveis a nível individual (prazer, conveniência, saúde) e também coletiva (origem, ética, sustentabilidade).
Conforme revela o mesmo estudo, "as marcas com propósito focam-se numa questão-chave para o seu setor, na qual desejam ter o máximo impacto positivo". Ao produzir carne de forma ética e sustentável, o nosso propósito é inequívoco e, como diria o poeta, esse caminho já está a ser caminhado. Mas continua a faltar-nos o mais importante em toda esta equação: uma marca forte e irmanada com tudo o que a origem encarna e representa - i.e., uma Portuguese Cuisine. Para concluir, fica a pergunta: se setor do turismo, como outros, soube atualizar-se e alterar a perceção da marca Portugal em dez anos, não será uma indústria que convive todos os dias à mesa com os portugueses capaz de ser parte integrante desta constelação de atributos e fazer o mesmo e em menos tempo?
Clara Moura Guedes, CEO, Grupo Monte do Pasto