Ainda bem que foi Cristo a dizer

Os políticos sempre pregaram para convocar a simpatia e o apoio das massas; mais ainda em democracia, onde a intenção de um político não pode ser imposta à força, mas só pela força do número.
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Mas parece-me que antes, com menor omnipresença dos media, a pregação tinha o seu tempo e lugar e não era a toda a hora. Posso até estar enganado, mas não me parece que Churchill tivesse todos os dias uma feira para visitar, como acontece por cá. Não há dia em que o Primeiro-Ministro, o seu Vice e o da Economia, para falar apenas dos mais pregadores, não preguem numa feira, numa palestra, num encontro de proto-empreendedores ou num congresso de contabilistas. Pergunto-me sempre quando trabalham? Quando se sentam a matutar nos dados, nos factos e na realidade? Quando encontram a paz e o silêncio para ter ideias e descortinar soluções? A pergunta é retórica, porque a governação, como quase tudo neste país, foi desenhada "lá fora". Cá dentro resta a pregação.

À pregação dos políticos, que tentam conseguir o voto pela mentira, pelo logro e, na melhor das hipóteses, pela intenção, junta-se a pregação de inúmeros plumitivos acólitos que amplificam o ruído tornando inaudíveis os factos, os números e a realidade. A realidade continua a ser vivida por todos, mas o seu entendimento, as causas e as culpas dela, são apenas do domínio da percepção, ou seja, resultado da pregação.

Ontem (quinta-feira) um artigo do DN, a propósito do padre António Vieira, levou-me à estante. Abri o livro e lá estava o que é preciso saber sobre a pregação:

"Vós, diz Cristo falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra porque quer que façam na terra o que faz o sal. [...] impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm o ofício do sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?

Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra não se deixa salgar.

Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra não se deixa salgar e os ouvinte, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber.

Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem."

E é aqui que o "Sermão de Santo António", de padre António Vieira, nos leva a Passos Coelho, a Sócrates & Cia. Quando eles nos querem fazer crer, a propósito de taxas não pagas e vidas inexplicáveis, que são apenas homens como os outros, por muito que queiram aparecer como iguais aos demais nas falhas, a verdade é que o povo, no fim, sente-se licenciado para fazer o que eles, pregadores, fazem.

"[E] que se há-de fazer com este sal e que se há-de fazer com esta terra?" pergunta Vieira. A resposta vem de Cristo pela pena de Mateus: "Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se há-de fazer é lançá-lo fora como inútil, para que seja pisado por todos."

Ainda bem que foi Cristo a dizer e não um extremista qualquer.

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