Ajustamento suave em 2025

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Num momento em que os grandes eventos geopolíticos do ano parecem estar ultrapassados, as atenções dos observadores da economia mundial voltam a estar centradas nos dados fundamentais macroeconómicos, e sobre como é que a atividade se vai comportar até ao final do ano e nos primórdios de 2025. E existem algumas evidências de que, apesar dos sinais de alerta sugerirem cautela, a verdade é que muito provavelmente estaremos perante um cenário de ajustamento suavizado por parte das economias mundiais.

Este otimismo construtivo é apoiado por algumas leituras que indiciam que o crescimento económico continua a progredir, e até mesmo a fortalecer-se em algumas regiões, ao mesmo tempo em que, de forma definitiva, a inflação aparenta estar sob controlo, ajudada pela estabilidade dos preços das matérias-primas e pelo arrefecimento das condições do mercado de trabalho. Isto permitiu que os principais bancos centrais ocidentais normalizassem as condições monetárias. Olhando para o futuro, e entrando já por 2025, os principais observadores económicos aguardam por um crescimento semelhante a uma tendência para os principais mercados desenvolvidos, com um desempenho abaixo da média em outras partes do mundo.

Pela Europa os sinais de fraqueza económica têm vindo a acumular-se, apesar do crescimento ter surpreendido positivamente no terceiro trimestre (+0,4% trimestrais). A leitura do índice avançado relativo à atividade (PMI) e os indicadores de sentimento de outubro estão a enviar uma mensagem clara de que a dinâmica é fraca na zona euro. O mercado de trabalho também ainda não arrefeceu significativamente, e, no entanto, os inquéritos relativamente ao mercado de emprego têm vindo a mostrar que as empresas estão a reduzir o número de funcionários em antecipação às preocupações com a situação económica regional europeia. Por fim, com o foco ainda na consolidação fiscal, os gastos do estado podem revelar-se um obstáculo ao crescimento, pelo menos até 2025.

Contudo, o braço forte do BCE deverá prevalecer. Depois de reduzir as suas taxas diretoras em 25 pontos base na sua reunião de outubro, o banco central reiterou a sua abordagem dependente de dados e reunião a reunião. Ao mesmo tempo, o conselho do BCE observou que o processo de controlo de inflação estava em bom curso, e que as perspetivas tinham sido apenas afetadas pelo enfraquecimento da atividade económica.

Alguns observadores indicam ainda que, tendo em consideração os comentários recentes dos responsáveis do BCE e as preocupações crescentes em torno das perspetivas de crescimento, o banco central poderia avançar para uma redução maior de 50 pontos base em dezembro. De qualquer forma existe uma convicção relevante de que as taxas de juro possam descer de forma sustentada durante 2025, podendo estabilizar em torno dos 2,5% a 2%.

Ou seja, apesar de os riscos ainda persistirem, e de certa forma a economia ainda esteja a pagar o preço do combate à espiral inflacionista dos últimos anos, à qual se juntam a natureza imprevisível dos conflitos regionais em curso, juntamente com o resultado das eleições nos EUA, existem razões para acreditar que haverá de facto um ajustamento , mas que este será suave até ao final do ano e principio de 2025, podendo a economia europeia, e consequentemente a portuguesa, recuperar novo fôlego com a primavera, à medida que a descida dos juros vá tendo impacto nos custos financeiros das empresas e das famílias, e alimentando melhores expectativas futuras.

Economista, Presidente do International Affairs Network

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