"O desenvolvimento de novos produtos deve estar sempre alinhado com as tendências de consumo". Esta é a recomendação de Deolinda Silva, diretora executiva da PortugalFoods (associação do setor agroalimentar português), às empresas, para melhor orientarem as suas estratégias de inovação, neste caso, na indústria agroalimentar.
Na atualidade, considera que ganham protagonismo nas prateleiras dos supermercados "os produtos de base vegetal, com funcionalidades e com digitalização associada", em contexto de "novos formatos, texturas ou sabores". Mas, a pensar no futuro, Deolinda Silva não duvida que "o consumidor está apostado na procura de produtos e marcas alinhados com a sustentabilidade".
Para responder a esses atributos da procura, a dirigente entende que "as empresas têm de estar comprometidas com o cumprimento de metas e alinhamento com os novos standards e regras relativas à sustentabilidade, que serão anunciados em 2024".
Por esse motivo, acredita que "esta temática [da sustentabilidade] será a que mais vai prevalecer no desenvolvimento em inovação das empresas nos próximos anos, seja em inovação de produto, de processo ou de modelo de negócio".
"As empresas inovadoras estão permanentemente em alerta relativamente às alterações de mercado e de comportamento dos consumidores, seja a inovação incremental de produtos existentes no portefólio das empresas, seja o desenvolvimento de novos produtos." Em sua opinião, "a capacidade de uma empresa estar permanentemente informada e a sua capacidade de adaptação ditam os critérios e prioridades de inovação".
Resultados: o que está bem e o que pode melhorar
O retorno de querer estar na linha da frente das novas ofertas no mercado até pode ser quantificado e tem um nome: exportação.
"Toda a evolução do setor agroalimentar nacional está baseada numa aposta em inovação, que permitiu o reconhecimento internacional de Portugal, como país produtor de excelência, com qualidade e segurança. E isto está bem patente, por exemplo, na evolução das exportações do setor, que cresceram quase 50% entre 2012 e 2022, com um peso de cerca de 11% no total das exportações portuguesas de bens."
Apesar da exposição exterior positiva, internamente, ainda há muito trabalho de casa por fazer. "Portugal tem evoluído favoravelmente na despesa em investigação e desenvolvimento que, em 2022, representou 1,72% do PIB, no entanto, e apesar de ter crescido 14,5% entre 2021 e 2022, está ainda longe dos 3% ambicionados pelo governo para 2030."
Deolinda Silva até admite que "o setor agroalimentar, em particular, tem dado um contributo importante para este crescimento, com várias empresas da indústria alimentar e das bebidas no top das empresas nacionais que mais investem em I&D".
Em termos europeus, coloca Portugal no "grupo dos países considerados moderadamente inovadores, com um desempenho de 85,6% relativamente à média europeia", mas assume que a evolução "não está a ser tão convergente como se pretenderia".
Por esse motivo, considera "urgente melhorar a performance do setor em vários parâmetros como, por exemplo, no investimento em I&D, em inovação colaborativa e em startups".
O despertar para a mudança
A ter havido algum marco histórico que fez o click na indústria agroalimentar para a necessidade de inovar, Deolinda Silva coloca-o em 2017, quando "um grupo de 44 entidades, dinamizadas pela PortugalFoods, arrancaram para a execução do maior projeto de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico alguma vez realizado, no nosso país". Tratava-se do projeto MobFood-Mobilização do Conhecimento Científico e Tecnológico, que "reuniu empresas e investigadores de centros de I&D de universidades, bolseiros de investigação em torno dos desafios colocados pela indústria, cuja execução decorreu entre 2017 e 2021, com um investimento total que rondou os 7 milhões de euros".
Mas o empenho não esmoreceu, e até foi revitalizado no pós-pandemia com o empurrão do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), uma oportunidade que a PortugalFoods agarrou. Por um lado, Deolinda Silva destaca a Criação de um Roteiro para a Descarbonização do Setor Agroalimentar, mas reconhece que "o grande desafio" foi o de dinamizar uma Agenda Mobilizadora, liderada pela MC e que reúne 49 entidades - o VIIAFood. "Este Pacto de Inovação, tem um investimento de cerca 100 milhões de euros e um desenvolvimento em torno de pilares de atuação que vão desde o desenvolvimento de produto, de processo, transição digital e sustentabilidade ambiental". Acredita que o projeto "irá, com toda a certeza, impactar fortemente no contributo do setor alimentar na economia nacional".
Em paralelo, a PortugalFoods, como entidade gestora do cluster agroalimentar nacional, tem vindo a atuar também a montante, tendo criado há sete anos o Prémio Ecotrophelia, "precisamente para promover a colaboração entre a indústria e as entidades do sistema científico nacional", através da distinção de grupos de estudantes que colaboram para criar produtos ecoinovadores.
O prémio já surtiu efeitos encorajadores: reuniu um total de 717 participantes, o desenvolvimento de 123 produtos e a conquista a nível europeu por duas vezes: 1.º lugar em 2020 com a equipa OrangeBee e o 2.º lugar em 2022 com a equipa Handy Rice. Para esta iniciativa, Deolinda Silva destaca também a colaboração com a Agência Nacional de Inovação.