O segundo trimestre de 2023 ficou assinalado por um travão no mercado de crédito hipotecário. Entre abril e junho, a procura por empréstimos para compra de casa em Portugal registou uma diminuição face ao conjunto dos três meses precedentes, em resultado da subida da Euribor e do aumento dos preços da habitação.
Os dados pertencem ao "Inquérito aos Bancos sobre o Mercado de Crédito", divulgado esta terça-feira, pelo Banco de Portugal (BdP). O estudo avaliou a oferta e a procura no setor durante aquele período, e antecipa, com base no reporte das instituições financeiras nacionais ao regulador, que a tendência de travagem deverá manter-se entre julho e setembro.
A desaceleração do financiamento para compra de casa tem pautado os últimos meses, com o montante total deste tipo de empréstimos a encolher 760,8 milhões de euros desde o início do ano. De acordo com as últimas estatísticas disponíveis, no final de maio, o stock de crédito à habitação era de 99,5 mil milhões de euros, menos 0,1% do que em abril.
O abrandamento fez-se sentir também no segmento do consumo, com a própria confiança dos consumidores e, em menor escala, o nível geral das taxas de juro e o recurso às poupanças a contribuírem para reduzir a procura.
Já do lado dos bancos, os critérios de concessão de crédito aos clientes particulares mantiveram-se estáveis no segundo trimestre, apesar de a proporção de pedidos de empréstimo rejeitados ter aumentado "ligeiramente" no consumo e outros fins.
No que respeita aos termos e condições dos contratos, no crédito hipotecário, as pressões da concorrência contribuíram para a diminuição dos spreads (margem de lucro do banco) em empréstimos de risco médio, enquanto a "perceção de riscos contribuiu ligeiramente para o aumento dos spreads em empréstimos de maior risco", refere o supervisor.
As expectativas passadas pelos bancos à entidade liderada por Mário Centeno apontam para que, nos próximos três meses, haja um "aumento muito ligeiro da restritividade no crédito ao consumo". No crédito à habitação, por seu turno, não são esperadas quaisquer alterações.
À semelhança do sucedido nos particulares, também os pedidos de empréstimo por parte de empresas portuguesas diminuíram entre abril e junho deste ano.
As altas taxas de juro, conjugadas com a redução das necessidades de financiamento e o recurso à geração interna de fundos terão contribuído para a desaceleração da procura, sobretudo por parte de grandes empresas e em empréstimos de longo prazo, revela o relatório.
Contudo, estes fatores foram "ligeiramente" compensados por "necessidades de financiamento de existências e de fundo de maneio e, no caso das Pequenas e Médias Empresas (PME), também de refinanciamento e renegociação da dívida", destaca a entidade supervisora.
Segundo dados do Banco de Portugal, no final de maio, o montante total de empréstimos concedidos pelos bancos às empresas era de 73,9 mil milhões de euros, menos 200 milhões do que em abril. Já olhando para o início do ano, o valor em causa diminuiu 1,4 mil milhões de euros.
Durante o segundo trimestre, os bancos continuaram a apertar o cinto às empresas, tornando os critérios de concessão de crédito mais restritivos, tal como já o haviam feito nos primeiros três meses do ano. O número de pedidos de empréstimo rejeitados também subiu, especialmente a PME. O motivo, explica o supervisor, está relacionado com a "perceção e a tolerância a riscos".
Em relação aos contratos, verificou-se um aumento do spread em empréstimos de maior risco, bem como uma maior restritividade associada aos restantes termos e condições, principalmente nos empréstimos a empresas de pequena e média dimensão.
Para os três meses que se seguem, os bancos antecipam uma diminuição da procura de empréstimos, em particular por parte das PME e de empréstimos de longo prazo, e um aumento da procura de empréstimos de curto prazo. Já os critérios deverão tornar-se ainda mais restritivos para aquele tipo de empresas e transversal à maturidade dos empréstimos.