Amândio Santos, 41 anos, mora na zona
centro, tal como Luís de Matos, mas não é mágico, apesar de se
orgulhar de ter feito desaparecer as salmonelas das cantinas e as
intoxicações alimentares provocadas pela maionese estragada dos
casamentos. O truque que garante a segurança alimentar é tão
simples como o ovo de Colombo e consiste em pasteurizar o ovo líquido
ou em pó, com um choque térmico a 70º C, durante 90 segundos,
garantindo-lhe assim 28 dias de vida suplementar.
O homem que organizou a fileira desde
que a galinha põe o ovo até que ele aterra nos nossos pratos é
natural do Pombal, onde bate o coração da Derovo que foi esta
semana distinguida com o Prémio PME Inovação da Cotec.
Líder ibérica no sector, com uma
facturação de 55 milhões de euros, a Derovo transforma, na sua
fábrica do Pombal, 30% da produção nacional de ovo em casca em ovo
líquido, cozido, em pó ou em spray, matéria-prima que dá para
confeccionar todos os pratos e iguarias que envolvam ovos, com uma
única excepção - o clássico ovo estrelado.
Além de evitar salmonelas e
intoxicações alimentares, Amândio também quer facilitar-nos a
vida. Quer fazer um molotof? Compra só as claras. Doce de ovos?
Adquire apenas as gemas. Abriu uma lata de atum, outra de
feijão-frade, adicionou cebola picada e azeite e está a pensar que
um ovo cozido ficava mesmo a matar mas tem preguiça de sujar um
tacho, esperar que a água ferva, o ovo fique uns bons dez minutos a
cozer e depois deixá-lo a estagiar em água fria para a casca sair
bem? Isso vai deixar de ser um problema, porque vão estar
disponíveis para compra ovos já cozidos descascados. E para
saborear a gentil omeleta acaba a maçada de partir os ovos e
batê-los com energia. Basta compra o ovo líquido e derramá-lo na
frigideira.
A omeleta com salsa e cebola é o prato
de ovo preferido de Amândio, um filho de avicultores, que nasceu e
cresceu entre 2400 galinhas que punham diariamente dois mil ovos - a
exploração da família Santos, que não aguentou o embate da
primeira vaga da industrialização do sector, desencadeada pela
adesão de Portugal à CEE.
Amândio estudou Contabilidade, à
noite, em Aveiro, enquanto trabalhava na empresa que fazia a
decoração das Pousadas de Portugal. Vendia janelas e escadas para
sótãos quando os produtores de ovos o foram desinquietar.
A partir do zero, construiu o líder
ibérico do sector e prepara-se para fechar a verticalização da sua
actividade, de jusante a montante - com o investimento no centro de
produção de Proença-a-Nova, no qual um milhão de galinhas vão
pôr ovos na estrita observância da nova legislação comunitária
que vela pelo bem-estar das poedeiras.
"Vai ser uma espécie de resort
para galinhas. Cada uma vai ter um espaço privativo de 750 cm2,
areia para esgravatar, um ninho com aparas de madeira esterilizada e
uma superfície de lima para desgaste das unhas", conta Amândio.
Com este investimento, garante que não sofrerá solavancos na cadeia
de abastecimento, já que as novas exigências da União Europeia
deverão dizimar muitas explorações - além de provocar um aumento
de 30% no preço dos ovos.
Investir num resort para galinhas não
estava seguramente nos planos dos produtores de ovos do vale do
Vouga, da Beira Litoral e do Oeste (que representam 70% da produção
nacional), quando há 16 anos se associaram para criar a Derovo, com
o objectivo imediato de garantirem a sobrevivência e o escoamento da
sua produção, subindo na escala de produção, num investimento
proporcional às galinhas que cada um possuía.
Nós, os portugueses, consumimos 180
ovos/ano per capita, uma média bastante inferior à espanhola (290
ovos/ano) e à europeia (mais de 300 ovos). "É uma questão
cultural. Para nós o ovo não é olhado como uma alternativa ao
peixe ou à carne. Só pedimos uma omeleta quando decidimos comer uma
coisa leve", lamenta Amândio, que decidiu rumar a Espanha não
só atrás de clientes importantes (como a Cuétara) mas também de
galinhas (nuestros hermanos têm 46 milhões, nós ficamo-nos pelos
seis milhões), dando ao grupo a capacidade produtiva de que
necessitava para crescer.
A industrialização revelou-se um
sucesso tremendo e mensurável. Quando começou a trabalhar, em 1996,
a fábrica de Pombal processava 120 mil ovos por dia. Hoje, o grupo
Derovo transforma diariamente 3,8 milhões de ovos, em Portugal e
Espanha (Astúrias), e tem em curso diversos investimentos no valor
de 40 milhões em três projectos: uma fábrica de omeletas outra de
sobremesas e um megacentro de produção de ovos.
O ovo estrelado é o único
quebra-cabeças que aflige Amândio. Mas talvez não por muito mais
tempo, já que a Derovo está a desenvolver, em parceria com a
Universidade do Minho, um protótipo de ovo estrelado pasteurizado
que, depois de comprado, bastará aquecer no microondas. A nossa vida
ficará ainda mais simples.