Ana Free. Do YouTube para a Califórnia, financiada diretamente pelos fãs

Um domingo por mês, Ana Free sobe a um palco virtual e toca para os fãs na plataforma online <a href="https://www.stageit.com/site/landing" target="_blank">Stageit.com</a>.
Publicado a

É uma espécie de ritual para a sua base de fãs, a que chama "Freeworld", e uma das suas fontes de rendimento. Independente desde o início da carreira, que começou com vídeos no YouTube em 2008, a cantora anglo-portuguesa continua a fazer tudo sozinha: nem sequer tem "management". "Sou uma artista independente, giro as minhas coisas e tenho de estar sempre em cima de tudo", conta ao Dinheiro Vivo em Santa Mónica, Los Angeles, onde vive há dois anos e meio. "Sou a artista, a mulher de negócios, a negociadora, a manager. E prefiro assim, porque confio sobretudo em mim para gerir os meus projetos."

O próximo chama-se "The Weight of the Soul" e é um EP com cinco músicas originais e um bónus, o primeiro single "Say it to me", que saiu há poucas semanas e foi escrito em parceria com a artista da Costa Rica Debi Nova. O lançamento do EP está marcado para setembro e Ana Free tem trabalhado non-stop para o terminar, esperando uma boa reação de quem lhe tem permitido viver esta aventura - os fãs, que estão espalhados um pouco por todo o mundo, desde Portugal e Estados Unidos à Argentina, Brasil, Alemanha e Reino Unido.

"O dinheiro que faço vem diretamente da minha base de fãs", explica, sublinhando que não é tanto com a venda de canções ou o seu "streaming", que dão muito pouco dinheiro, cêntimos. "Dá para ir ao Starbucks", brinca. "Faço dinheiro com os vídeos, os concertos online." O seu primeiro álbum "To.get.her", lançado em 2013, foi financiado precisamente com uma campanha de crowdfunding na plataforma PledgeMusic, ultrapassando bastante os 10 mil euros pedidos no início. Agora, tem uma campanha de micro-financiamento permanente no site Patreon.com, onde os fãs podem ajudar diretamente os artistas de que gostam.

"São formas interessantes de fazer dinheiro com música. Faço dois vídeos para o Patreon por mês, e conforme o que os fãs pagam recebem exclusivos, como faixas MP3, vídeos ou fotografias inéditas", conta. Dar concertos e vender merchandising também contribui para tornar possível esta forma de estar invulgar, sem editora nem ninguém para gerir a sua imagem, contando sobretudo com um grande apoio da comunidade e de alguns meios. "A MTV é fantástica, gosto muito das equipas que trabalham comigo", exemplifica, "e tenho o apoio das rádios que me importam, e não esqueço como as pessoas me tratam."

Viver na Califórnia

A transição foi muito difícil, admite. "Cresci imenso nestes dois anos e meio em Los Angeles, teve que ser, não tenho cá os pais, saí da zona de conforto. Não tenho nenhum contacto com Portugal cá, nem a nível de comida nem de pessoas." As músicas do novo EP contam essa história de crescimento e adaptação, o que resulta, diz, num "som mais maduro." Optou por regressar às raízes da guitarra e apostou muito em sonoridades folk-pop, com tambores e bandolim, que aprendeu a tocar. Fez um álbum mais poético, que inclui uma canção chamada "California". "Se as emoções tivessem peso, e pudesses pesar a tua alma ou de onde vêm as tuas emoções, esse peso seria uma indicação de onde estás na vida", descreve. "Estas músicas em conjunto são uma fotografia de onde eu estou emocionalmente neste momento, depois desta viagem e transições de vida."

Em Los Angeles, Ana Free aprendeu a gerir a sua presença digital de uma forma mais estruturada e tem uma parceria com a rede Collective Digital Studios, mas ainda resiste à tendência das novas celebridades do Vine, Snapchat e Instagram, que põem tudo o que fazem online - e ganham muito dinheiro com isso. "O mistério agora já não vende, o que vende é mostrar o que estás a comer, as pessoas querem a vida pessoal", analisa. "Eu ainda não aprendi a expor-me dessa forma. Sou uma pessoa que trabalha muito, não tenho uma vida tão glamorosa quanto isso para mostrar", graceja. No entanto, está sempre à procura de novas oportunidade. "Não quero viver numa câmara todo o dia, prefiro sair e trabalhar com pessoas num estúdio ou num projeto para a televisão, numa competição, coisas em que haja alma."

O que a cantora também aprendeu é que esta é uma cidade terrível para vender música, ironicamente. "Los Angeles é uma cidade de sonhos, e é uma cidade também de muitos sonhos perdidos e partidos." Há artistas em cada esquina, a tentar vender a sua ideia, a mostrar o seu talento. As amizades baseiam-se muitas vezes em interesses e favores e há muitas promessas quebradas. "Enquanto europeia, não estou habituada a isso. Não percebo porque é que as pessoas dizem que "sim" se o que querem dizer é "não"", desabafa.

No entanto, as oportunidades são inigualáveis. Ana Free tem feito algumas coisas em publicidade , tem um agente de representação e não põe de parte aceitar um papel como atriz, desde que seja um projeto interessante. Gosta do clima, adora a zona onde vive. "Quero ficar aqui, é uma cidade "fixe", mas demora tempo para se conseguir vencer." Com 28 anos acabados de fazer, isso é coisa que não lhe falta.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt