Máscaras omnipresentes, edifícios com acesso através de torniquetes e após controlo de temperaturas, aulas presenciais com transmissão síncrona online, programas massivos de testagem das comunidades universitárias: todas estas memórias recentes já nos parecem distantes, agora, quando as instituições de ensino superior nacionais se preparam para o primeiro ano letivo (2022/23) completo a decorrer (desejavelmente) em cenário pós-pandémico.
As transformações foram imensas desde aquele 9 de março de 2020 em que (com a razão que os dias seguintes haveriam de justificar) a Universidade de Coimbra se tornou - junto com a congénere de Lisboa - a primeira instituição nacional a suspender todas as atividades letivas presenciais no contexto da covid-19.
Rapidamente passámos do ensino presencial ao online (com o desenvolvimento de plataformas digitais de grande utilidade mesmo no pós-pandemia), desmaterializámos processos e serviços (com ganhos inequívocos ao nível da eficácia e da sustentabilidade) e garantimos a segurança e o bem-estar de toda a comunidade académica (com a preocupação de que ninguém ficasse para trás).
Esses esforços, comuns a tantas outras universidades e politécnicos, só provaram - para usar a palavra ainda muito em voga - a resiliência do sistema de ensino superior, mesmo quando sujeito a quebras de receitas e a muitas despesas suplementares durante os últimos dois anos e meio. Mas é um alívio sentir que, se tudo correr como esperado, teremos finalmente em 2022/23 um ano letivo completo longe da sombra da pandemia.
Infelizmente, isso não nos isenta de novas nuvens negras no horizonte. Os estilhaços da guerra na Ucrânia, a crise energética e o aumento da inflação, deverão atingir-nos com ainda mais intensidade nos próximos meses, sobrecarregando instituições que já sofrem de crónico subfinanciamento, apenas maquilhado por acertos circunstanciais.
Depois da resposta cabal em pandemia - e nunca é demais ressalvar o capital de importância da produção de conhecimento e respetiva transferência para a sociedade - as instituições de ensino superior não podem passar mais sobressaltos sem devida compensação financeira, proporcional ao aumento de despesa já sentido e que venhamos a sentir. Só assim o ano letivo de 2022/23 pode ser o virar de página em toda a sua plenitude.
Reitor da da Universidade de Coimbra