Ano Novo, despesas novas

Como é habitual, sempre que o ano muda, acarreta consigo mais despesas - e algumas oportunidades de poupança. Reunimos o essencial para preparar a sua carteira para o 2026 que se avizinha
Estima-se que alguns alimentos, como a carne e o peixe, aumentem em torno de 7%.
Estima-se que alguns alimentos, como a carne e o peixe, aumentem em torno de 7%.Leonardo Negrão
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Habitação, transportes, energia e alimentação deverão ficar mais caros logo na virada do ano. Entre as taxas de juro, os aumentos de rendas à boleia da inflação do ano anterior, e os ajustes em combustíveis e transportes públicos, o melhor é preparar a carteira para a chegada de 2026.

Por outro lado, os aumentos de pensões, a descida de IRS para senhorios e inquilinos e a atualização do salário mínimo da função pública, bem como das pensões, podem ajudar nas contas.

Mas vamos por partes, para ser mais fácil. Rendas, telecomunicações, bilhetes de transportes e portagens são alguns dos serviços que vão acompanhar ou mesmo superar a inflação esperada para o próximo ano (2,1%), tal como deverá acontecer com alguns alimentos como a carne e o peixe, que se estima que aumentem em torno de 7%. O pão, elemento fundamental à mesa dos portugueses, deverá subir ligeiramente, mas abaixo da inflação prevista.

Na energia, a tendência é de aumento, mas com exceções. No mercado regulado, no qual estão 800 mil clientes, a fatura da eletricidade vai ficar 1% mais cara, logo a partir de dia 1 de janeiro. Segundo a ERSE, o regulador do setor energético, a subida traduz-se num acréscimo entre 0,18 e 0,28 euros na conta mensal da luz, já com taxas e impostos. Ou seja, considerando uma potência de 3,45 kVA e um consumo de 1.900 kilowatts-hora (kWh) por ano para um casal sem filhos, o total a pagar será, em média, de 36,82 euros. Já para um casal com dois filhos, com uma potência de 6,9 kVA e um consumo de 5.000 kWh/ano, a fatura média será de 95,03 euros.

No mercado liberalizado, porém, se for cliente da EDP ou da Galp, pode contar com uma redução entre 0,5% e 1% na sua conta mensal, anúncio que já foi feito pelas duas operadoras.

Também a fatura da água deverá aumentar. Isto porque - ainda que essa decisão caiba a cada município - o regulador recomendou um aumento de 1,8% no serviço de captação e tratamento de água que antecede a distribuição. A EPAL, por exemplo, já anunciou um aumento de 17 cêntimos para a maioria dos seus clientes. De acordo com a empresa responsável pelo abastecimento de água à cidade de Lisboa, “a atualização de preços para a grande maioria dos clientes domésticos da EPAL, cerca de 85% (consumo médio mensal de 7 m3 e um contador até 25mm), é de 17 cêntimos por mês”, e já a partir de dia 1 de janeiro.

Transportes e telecomunicações continuam a subir

Nos transportes, o cenário não é mais animador. Apesar de os municípios de Lisboa e Porto já terem anunciado que os passes Navegante e Andante não vão sofrer alterações no próximo ano, os bilhetes nos comboios da CP deverão aumentar, em média, 2,26% - o que eleva para €35,70 o custo de uma viagem entre Lisboa e Porto no Alfa Pendular, em classe Turística. O Passe Ferroviário Verde, à semelhança dos outros dois passes mensais, não sofre mexidas e mantém-se nos €20 euros/mês.

Mas para quem é utilizador ocasional, os custos agravam-se de forma significativa, tanto em Lisboa como no Porto, com subidas entre cinco a 25 cêntimos por bilhete, seja nos autocarros, no metropolitano e até nas viagens pré-compradas, consoante os serviços a utilizar.

Os preços praticados em Portugal continuam, assim, a contrastar com outras capitais europeias como Paris e Madrid, onde os transportes permanecem significativamente mais acessíveis, tendo em conta os salários mínimos e médios em cada país. E falando de comparações, o mesmo acontece nas telecomunicações, onde por cá se continua a pagar bastante mais para conseguir acesso a pacotes de televisão, internet e telefone, quando comparado com as congéneres europeias.

A NOS vai aumentar os preços em alguns serviços em 2026, em linha com a taxa de inflação esperada, à semelhança da MEO, que já anunciou uma subida de preços no próximo ano, com exceção dos “serviços da marca digital Uzo e da marca para o segmento jovem Moche”.

Para não ficar atrás na corrida, a Vodafone Portugal volta também a atualizar o preçário “até ao valor máximo da taxa de inflação prevista para 2025”, já a partir de dia 9 de janeiro. “A atualização de preços […] não se aplica a pré-pagos e aos tarifários mais recentes, nomeadamente, RED All In, Yorn Chill e Net+ e oferta Black Friday”, diz a operadora. Alguns outros serviços também só sentirão o aumento dos preços no verão do próximo ano.

Outro lugar onde vai sentir o aumento é nos serviços dos CTT, que deverão aumentar, em média, 6,20% segundo a empresa. Numa carta normal, de envio nacional até 20 gramas, vai pagar mais 4 cêntimos por um selo.

E se prefere o carro aos transportes públicos…também vai notar agravamentos. As portagens das autoestradas serão atualizadas em 2,29% em 2026, um aumento que resulta do acordo celebrado em 2022 pelo Governo para compensar as concessionárias pelo travão imposto a uma subida de cerca de 10% em 2023. No entanto, a partir de abril, deverão ficar isentas de portagens a totalidade da A25 Costa da Prata e Beiras Litoral e Alta, e dois troços da A6 e A2 no Alentejo (entre o nó A2/A6/A13 e Caia, e entre o nó A2/A6/A13 e Almodôvar).

No caso da A6 e A2, a isenção só abrange as pessoas com residência e as empresas com sede em determinadas “áreas de influência” das duas autoestradas.

Ainda a habitação

Nas casas, os senhorios podem agora aumentar o valor das rendas de casa em 2,24%, de acordo com o aviso do coeficiente de atualização de rendas do INE. Na prática, o aumento equivale a uma subida de 2,24 euros por cada 100 euros de renda, o que significa que uma renda de 1.000 euros deverá aumentar 22,40 euros no próximo ano. Para quem é senhorio, isto poderá representar um encaixe financeiro ainda maior nas rendas até €2300, uma vez que as novas leis da habitação determinam a redução substancial do IRS (passam a pagar apenas 10% de imposto) para as chamadas “rendas moderadas”. No mesmo sentido o governo pretende aumentar o valor limite da dedução em sede de IRS pelos arrendatários, de €700 em 2025 para €900 em 2026, o que poderá ajudar a mitigar o aumento.

Se não é arrendatário, mas proprietário, poderá também não se livrar de novas despesas. Se fizer alterações ou reconstruções no seu imóvel, ou se pedir uma nova avaliação, não se admire: o valor médio da construção por metro quadrado, que é tido em conta na fórmula de cálculo do IMI, vai subir 38 euros em 2026, passando dos atuais 532 para 570 euros, segundo uma portaria publicada em Diário da República. É a primeira vez que o valor médio de construção aumenta desde 2023.

A boa notícia vem sob a forma da taxa de juro do crédito bonificado para compra de casa por pessoas portadoras de deficiência: vai aumentar 0,06 pontos, de 2,563% para 2,623%, no primeiro semestre de 2026, refletindo a trajetória da taxa Euribor a seis meses, por decisão da Direção Geral do Tesouro e Finanças.

Pensões e salário mínimo aumentam, medicamentos mantêm-se

E porque nem tudo são más notícias, algumas notas positivas: tal como já tinha sido antecipado pelo Executivo, a maioria dos pensionistas vai ter um aumento de 2,80% nas pensões em 2026, segundo portaria publicada em Diário da República.

As pensões até 1.074,26 euros, onde se situa a grande maioria dos pensionistas, vão subir 2,80% tendo de aumentar, no mínimo, em €9,29 euros.As pensões de montante superior a 1.074,26 euros e até 3.222,78 euros sobem 2,27% e as pensões acima de 3.222,78 euros sobem 2,02%. Já as pensões de montante superior a 6.445,56 não são atualizadas.

No mesmo sentido, o salário mínimo nacional volta a subir €50 euros, e fixa-se nos €920 mensais, tal como estava previsto na proposta do Orçamento do Estado para 2026. Sobe, também, o valor do subsídio de refeição na Função Pública - passa de €6 para €6,15. Se este benefício for pago em Cartão Refeição, pode beneficiar de isenção em IRS até ao valor máximo de €10,46.

Não descem, mas também não aumentam: antibióticos, analgésicos, antidiabéticos e outros medicamentos que custam até 30 euros não vão aumentar de preço em 2026, segundo outra portaria publicada em DR.

Outra coisa que também não deverá mudar no próximo ano é o valor do Imposto Único de Circulação (IUC), que passa é a ter de ser liquidado, obrigatoriamente, no mês de abril, para quem paga até €100 de taxa. Haverá, para quem paga entre 100 e 500 euros, a hipótese de fazer o pagamento em duas prestações: uma em abril, e outra em outubro.

Em resumo, vai ser preciso fazer contas para ajustar o salário ao próximo mês de janeiro, com todas as mexidas que se esperam para 2026, como é, aliás, habitual nas viragens de cada ano. Ainda assim, as decisões do Banco Central Europeu e a conjuntura internacional deverão continuar a fazer mexer as peças do jogo durante todos os próximos meses, sem que se saiba exatamente para que lado do tabuleiro. O melhor, mesmo, é aproveitar a chegada do novo ano para renovar o otimismo na economia nacional.

Com Lusa

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