Anúncios que pedem... anúncios

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O cenário é desolador. A caminho do Alentejo

e ao entrar na autoestrada deparei-me com um cenário que não

imaginava que se iria repetir insistentemente ao longo de várias

horas de percurso. Onde habitualmente espreitavam belas mulheres,

carros desportivos, manjares de reis e férias de sonho estão agora

grandes e gigantescos anúncios vazios. Os outdoors estão

transformados em imensas manchas brancas com números de telefone que

pedem agora... anúncios.

Os tradicionais "reclames" estão a

desaparecer das estradas, dos jornais, das rádios e também das

televisões. Desde o leitão da Bairrada até à marca de automóveis

mais conhecida cada vez se anuncia menos. Uma imagem reveladora da

realidade do país. O sonho acabou mesmo!

Os mais distraídos podem esfregar as mãos de

contentes e dizer que finalmente acabou a poluição visual que

estragava o passeio ou interrompia os programas. Já os mais atentos

sabem, pelo contrário, que estes são sinais e alertas preocupantes.

A queda do investimento publicitário mais não é do que a

confirmação do estado da nossa economia e a morte anunciada de

muitos meios de comunicação social ou entretenimento. Sem

publicidade, dificilmente haverá bom cinema, bons jornais, boa

rádio, boa televisão. Sem os anúncios de que tantas vezes nos

queixamos, vamos perder os programas, os filmes, os noticiários e os

artigos de que tanto gostamos.

Ao diminuir a procura, um dos primeiros gastos

a cortar de imediato é a publicidade. Ironicamente, é precisamente

quando mais necessitam de clientes que as empresas são obrigadas a

desistir de anunciar.

Muitas vão ser as consequências desta triste

realidade. O bolo publicitário é essencial, por exemplo, para

manter o atual modelo de jornalismo independente. Sem esse

condimento, mais do que a sobrevivência de um negócio, está em

causa a verdadeira informação. Já no entretenimento, a luta quase

"sangrenta" por audiências para segurar a pouca

publicidade existente está a levar ainda mais à diminuição de

qualidade dos programas. Para já, os números apontam para uma

queda, só este ano, de quase 60 milhões de euros no mercado

publicitário. Resultados nunca vistos na última década.

No meio de todo este cenário negro, apenas uma

exceção. Ironicamente, é na internet, muitas vezes vista como a

"coveira" dos jornais, do cinema e da televisão, que surge

um mercado emergente e que começa agora a conquistar a pouca

publicidade ainda disponível. É de facto nas plataformas onde a

internet corre que estão a nascer os novos negócios. Sinal de que a

nossa vida tal como a conhecemos terminou e que o nosso futuro vai

ser inevitavelmente virtual.

Pivô e jornalista da RTP

Escreve ao sábado

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