Quando em 2011 Nuno Mesquita viu um vídeo de Rob Machado a surfar
numa alaia - uma prancha fina de inspiração havaiana -, não
imaginava que aquele momento iria transformar a sua vida. Arquiteto
de profissão e surfista há 20 anos, a dança de Machado em cima da
alaia deu-lhe a motivação para tentar criar a sua própria prancha.
Depois de alguma pesquisa, o arquiteto descobriu que as alaias
eram feitas de madeira paulownia, material também usado para fazer
pranchas de mão (handplanes) utilizadas no body surf. "Decidi
experimentar, fiz duas ou três pranchinhas, fui para dentro de água
e fiquei doido com o desporto", conta. Mas a grande inovação
estava ainda para acontecer.
Certo dia, depois de "acabar com todo
o stock de madeira que tinha em casa", Nuno Mesquita decidiu dar
uma hipótese à cortiça. E não podia ter corrido melhor, quer nas
pranchas quer nas alaias, prolongando a sua durabilidade. "É um
material que nunca foi explorado neste campo, mas tem características
incríveis. Além de não ser preciso cortar árvores, as pranchas de
cortiça que não precisam de acabamentos de verniz porque têm uma
resistência muito boa à água salgada e um toque e cheiro
agradável."
Foi a partir daqui que, em março de 2012, nasceu a Ahua. Para
conseguir o financiamento necessário, o arquiteto associou-se a uma
amiga, Ana Correia, que "estava à procura de um projeto para
concorrer ao Poliempreende", e a inovação garantiu-lhes dois mil
euros. Mais tarde, numa operação de crowdfunding, conseguiram mais
quatro mil euros - uma taxa de sucesso de 135% - para lançar o
projeto.
Atualmente, e apesar de ser ainda "um pequeno negócio", a
Ahua Surfboards vende pranchas para o Japão, Estados Unidos, Brasil e Europa, incluindo, claro, em Portugal. Além de vender diretamente no site, a
marca está presente em lojas como a Paez Portugal, em Lisboa, ou o
Samadi Surf Center, na Costa da Caparica. "As pranchas de mão em
acrílico, que custam 29 euros, são o best-seller", diz Nuno
Mesquita. As pranchas de mão de madeira paulownia e as de cortiça
custam 79 euros, enquanto as alaias têm um preço mínimo de 385
euros, sendo sempre personalizadas - criadas tendo em conta "as
características físicas da pessoa, as ondas que apanha e a sua
experiência de surf", explica o surfista.
Claro que as alaias não são para todos. "Muito pouca gente
consegue surfar nestas pranchas, é um desafio muito grande",
lembra Nuno Mesquita. Razão pela qual o arquiteto desenvolveu uma alaia muito semelhante às que já produz mas oca, "o
que faz com que tenha mais flutuação, tornando-se acessível a mais
pessoas".
E Nuno Mesquita promete não ficar por aqui. O próximo projeto são alaias "em foam, como as pranchas de surf normais". Quanto ao body surf, é preciso ainda "partir pedra" e dar a conhecer o desporto. É com esse objetivo que a Ahua Surfboards vai participar no Surf Family, evento de divulgação organizado pela Alfarroba, com campeonatos, aulas e uma programação específica, nos dias 21 e 22 de junho nas praias de São João da Caparica.