Podem ser os expositores coloridos com latas de sardinhas em escabeche ou polvo com tomate, algumas das especialidades das oito conserveiras nacionais com quem trabalham. Ou o enorme candeeiro prateado feito com três mil latas vazias, uma ideia do designer Vítor Vicente.
As garrafas de vinho e de azeite alinhadas nas prateleiras de madeira clara. Ou até os manjericos que enfeitam as mesas da esplanada. O Can-the-Can, no Terreiro do Paço, capta a atenção à primeira paragem.
O restaurante faz parte da nova Praça do Comércio - um conjunto de bares, restaurantes, museu da cerveja e até uma discoteca que abriu no mês passado - e foi inaugurado no final de junho. Na ementa, há pratos feitos com base em conservas, produtos tradicionalmente portugueses.
A ideia surgiu há mais de três anos. "Temos uma indústria conserveira antiquíssima, de altíssima qualidade. Alguns produtos nem sequer pisam o território nacional, vai tudo para fora. Achámos que o português tem todo o direito de conhecer os seus produtos, aquilo que se faz em Portugal, e de o abordar de uma forma mais original e diferente. De ver para além de uma lata de sardinhas, que é abrir e despejar para o prato", diz Ana Calheiros, uma das sócias do projeto e responsável por toda a área operacional, logística e de fornecedores.
Ana juntou-se ao ex-Heróis do Mar Rui Pregal da Cunha e ao arquiteto grego Akis Konstantinidis (que vive em Portugal há mais de 25 anos e é o responsável pela cozinha do restaurante) para juntos pensarem e porem em prática o conceito. O nome veio da música dos Suzi Quatro, Can the Can.
"Há uns três anos estivemos para implementar a ideia no Porto. A ideia era pegar em coisas fantásticas portuguesas, acima de tudo as que estão mais preservadas. Abrir, pegar naquilo e mostrar aos portugueses e estrangeiros que ainda é possível melhorar. O conceito estava à espera disto", diz Rui Pregal da Cunha sobre o espaço do Terreiro do Paço. No restaurante, as conservas transformam-se na parte principal dos pratos do restaurante.
"A ideia teve um ótimo acolhimento por parte das empresas conserveiras", adianta Ana. A ementa arrancou fixa mas a ideia é fazer entrar e sair vários pratos todos os anos e integrar um bife e um prato de bacalhau, uma marca mais da "portugalidade".
Além dos pratos da ementa, o Can-the-Can não se resume ao conceito de restaurante. O pé direito do espaço é muito alto e está emoldurado com prateleiras de madeira muito clara onde há vinhos, compotas, azeites e conservas, todos escolhidos pela equipa por serem portugueses, de alta qualidade e, habitualmente, de pequenos produtores que até ao momento são pouco conhecidos no mercado nacional.
"Por estas estantes acima", diz Ana, "temos expostos alguns dos produtos dos nossos parceiros, que as pessoas podem comprar. Ou seja, não é só comer no nosso espaço aquilo que produzimos em termos de cozinha mas também, se gostaram do que comeram, podem levar para casa. Não queremos passar por ser o restaurante da moda, queremos que seja uma coisa contínua e introduzir a vertente de loja. Nada melhor do que vir a um espaço privilegiado, saborear uma comida de que se gosta muito e levar para casa para repetir. Queremos ter neste espaço tudo o que é nacional e de qualidade", sublinha.
Para concretizar este objetivo numa dimensão que não termina na comida, Rui Pregal da Cunha quer criar e dinamizar o Laboratório do Fado, um encontro de músicos cuja interpretação desta música tradicional portuguesa seja diferente da que todos conhecem. "Esta ideia de laboratório começa pelo título, que é o ponto de partida e, por isso, tem de ser apelativo. Pensando no conceito do restaurante, se oferecêssemos alguma música, seria sempre fado", explica Rui Pregal da Cunha.
E acrescenta. "Estávamos muito fechados num conceito lusitano, mas teria de adequá-lo ao meu palato. O laboratório funciona só à noite e parte da ideia de ter músicos que mudem o invólucro. Vejo muitos fadistas e miúdos novos que desejam fazer isso. Há muita gente que associa o fado à tradição, mas depois há outros tantos que fazem diferente. São segundas e terceiras gerações de músicos e fadistas."
Há um palco no restaurante para os músicos "experimentarem as pequenas ousadias", uma espécie de modelo experimental numa "casa nada tradicional" para "pessoas que tenham projetos mas que nem estejam a ver onde é que eles vão chegar". Mas não pense que a música é exclusiva das horas após o pôr do Sol. A música está sempre presente, com fados à desgarrada, ao vivo, durante o almoço e antes da hora de jantar.
A cozinha do Can-the-Can fecha às 23h00 e o laboratório funciona das 21h00 à meia-noite. O preço médio por refeição, dependendo do prato e do vinho, fica entre os 20 e os 45 euros por pessoa.
Para cumprir todos os acertos desejados por quem ainda está a começar uma ideia, Ana, Akis e Rui não param entre a cozinha, o escritório, a sala e a esplanada. Apesar da correria, Ana já sonha com novos projetos. "Gostaria de expandir o conceito, acho que temos de o fazer. Nós precisamos de nos expandir. Portugal precisa de se expandir."