Área de repouso para animais não emergentes

"Passamos directamente dos condomínios de luxo que são a Europa, a América do norte e a Austrália para a pobreza extrema"
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Estas férias aterrei num aeroporto onde uma das primeiras indicações da sinalética à saída da manga era “área de repouso para animais de estimação”. Como deixei o meu gato em Portugal, a dita placa não me ofereceu grande interesse. Mas deixou-me a pensar. Quantos aeroportos no mundo terão áreas de repouso para animais de estimação? Será isto um tique de primeiro mundo, ou nos países emergentes, onde a crise actual ameaça condenar milhões de seres humanos à miséria, também haverá lounges para cães e gatos? Não creio. Dos vários países que conheço em África, na América Latina ou na Ásia, não me lembro nunca me ter cruzado com semelhante sinalética.

São pequenos detalhes como este, que sendo isso mesmo, um detalhe, colocam em evidência o enorme fosso que separa o primeiro do terceiro mundo. Sem que pelo meio conheçamos um segundo mundo. Não existe. Passamos directamente dos condomínios de luxo que são a Europa, a América do norte e a Austrália para a pobreza extrema. Quando olhamos para casos dramáticos como a Venezuela, onde a população se evade para outros países emergentes fugindo da fome, e a inflação ascende a um milhão por cento ao ano, percebemos que há países onde os animais têm mais direitos que as pessoas. Ou quando vemos a situação vivida pela Argentina, onde a inflação mais do que duplicou face ao último ano e o empréstimo de 50 mil milhões de dólares do FMI será uma gota de água para as necessidades da população. Ou ainda para a Turquia, país em que a moeda se desvalorizou mais de 40% relativamente ao dólar americano. Ou mesmo no Brasil, país onde é possível esfaquear um candidato presidencial em campanha e a dívida pública aumenta ao sabor da valorização do dólar, que empurra o real brasileiro para baixo.

Em comum, estes, como outros países emergentes, têm o facto de o seu endividamento estar fortemente ligado à moeda norte-americana, sem que a sua economia beneficie com a valorização do dólar. Pelo contrário. Os bens agrícolas que produzem, uma das principais fontes de riqueza e de crescimento do seu produto interno bruto, estão em queda livre. O açúcar caiu quase 30% desde o início de 2018, e o preço do café desceu cerca de 20%. Com as suas principais matérias-primas em queda e a moeda principal do seu endividamento, o dólar, em alta, os países emergentes sufocam, enfrentando um sério desafio de sustentabilidade.

A política monetária da FED tem sido marcada, nos últimos meses, por subidas sucessivas das taxas de juro, que têm tido como consequência a valorização da moeda norte-americana. A dependência dos países emergentes de um dólar fraco com baixas taxas de juro, que marcou a última década, está a ameaçar a saúde das suas finanças públicas. Quanto mais o dólar e a sua taxa de juro subirem, maior será a dívida destes países. E mais insustentável será o equilíbrio da sua balança de pagamentos. Os povos dos países emergentes irão sofrer com novas subidas da taxa de juro do dólar. Mas, nos países ricos, os animais de estimação continuarão, e bem, a ter cada vez mais direitos.

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