Arménia: o país que tem a adega mais antiga do mundo ainda é um bebé na produção de vinho

Tem mais de 400 castas autóctones identificadas, mas atualmente só meia centena é usada comercialmente. Rússia e EUA são os principais mercados e a Europa ainda deve demorar a conquistar
Arménia: o país que tem a adega mais antiga do mundo ainda é um bebé na produção de vinho
Tigran Hayrapetyan
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Areni Noir, Khangarts, Voskehat, Garan Dmak, …os nomes podem ser difíceis de pronunciar, mas são mais fáceis de beber. As duas primeiras são castas tintas, as segundas são brancas e fazem parte do pequeno grupo de espécies de uvas mais utilizadas e reconhecidas da Arménia. Considerado - ao lado da Geórgia - como o berço da criação dos vinhos, o país orgulha-se de uma História que é feita de invasões, conflitos, saques e muita arte. É na Arménia que se encontra a adega mais antiga do mundo, dentro da Caverna de Areni. Uma prensa, talhas enterradas no chão e sinais de sacrifício associados a rituais da época, revelam a presença de povos que já vinificavam, apesar de não ser propriamente para beber - o vinho era o símbolo do sangue da terra e era nele que eram mergulhadas as vítimas dos sacrifícios de então.

No entanto, só há cerca de dez anos a Arménia parece ter percebido o potencial económico de uma atividade que pratica há milénios. Foi em 2016 que o Governo daquele país, que faz fronteira com o Irão, a Geórgia, o Azerbeijão e a Turquia, decidiu criar a Wine and Vine Foundation. A iniciativa, público-privada, tem como principal objetivo preservar as castas indígenas, promover os vinhos arménios internacionalmente e aumentar o peso do setor no PIB.

Certo é que entre 2016 e 2023, o número de produtores de vinho cresceu de 25 para 150, tendo o investimento no setor, segundo dados do governo, multiplicado por 10 no mesmo período. A diáspora arménia tem um papel absolutamente fundamental no crescimento deste setor, pertencendo a ela grande parte do investimento realizado nos últimos anos. Estima-se, aliás, que atualmente haja cerca de dez milhões de arménios a viver longe do país que lhes dá a nacionalidade - os censos mais recentes mostram, por outro lado, que vivem na Arménia 2,9 milhões de cidadãos. Os êxodos após o genocídio arménio, em 1915, e durante o período soviético (1920-1991), explicam grande parte destes números.

Não é alheia à movimentação da diáspora a escolha dos mercados para onde o país mais exporta. No caso do vinho, a Rússia e os EUA são os dois principais destinos. É precisamente nesses dois países que estão as maiores comunidades arménias fora da Arménia. A Rússia, em particular, tem sido um importante mercado de exportação, naturalmente também devido à história partilhada e visível no centro da capital, Yerevan. É de edifícios da era soviética que se fazem as grandes avenidas da cidade, e é neles que estão alojados alguns dos mais importantes órgãos de soberania do país, nomeadamente os ministérios das Finanças e da Economia e a Procuradoria-Geral da República.

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A adega mais antiga do mundo, na Caverna Areni
A adega mais antiga do mundo, na Caverna AreniCMB

A proximidade geográfica, histórica e cultura coloca a Rússia como uma geografia muito relevante para a economia da Arménia que tenta, ainda assim, procurar novos mercados. Os vinhos daquele país têm, devagar, mas paulatinamente, conquistados consumidores internacionais - são vinhos genericamente elegantes, frescos, equilibrados e com um perfil aromático muito interessantes, sobretudo no que aos tintos diz respeito - mas para chegaram à Europa ainda deverão demorar algum tempo.

Num investimento que terá rondado os dois milhões de euros, o Governo da Arménia levou este ano a Yerevan mais de 300 especialistas internacionais, ao acolher o Concurso Mundial de Bruxelas (CMB), um dos principais concursos internacionais de vinho. O principal objetivo era dar-lhes a conhecer produtores, regiões e referências da Arménia, para alavancar as exportações. Em 2022, a Arménia vendia para o exterior cerca de 12,2 milhões de litros, ou cerca de 36,4 milhões de euros - são estes os dados mais recentes disponibilizados pela Vine and Wine Foundation. Em 2025, e segundo resultados preliminares da Armenian Viticulture and Winemaking Foundation, apesar de o volume exportado ter caído 3,1%, a receita aumentou 12,7%. Isto porque os vinhos arménios estão a colocar-se num mercado mais premium, que lhes permite crescer em valor e conquistar segmentos mais estáveis. Mas, ainda assim, é para a Rússia que seguem 80% dos vinhos arménios, admite a Vine and Wine Foundation, que sinaliza um incremento das exportações para alguns mercados europeus como a Suíça, a Bélgica ou a Alemanha.

O Dinheiro Vivo falou com alguns importadores e distribuidores europeus, durante o CMB, na semana passada, e os problemas apontados eram praticamente os mesmos: os custos de importação para a Europa, e a pequena dimensão da maioria dos produtores, que têm assim pouca oferta para aquilo que alguns mercados necessitam e tornam muito oneroso para o consumidor a opção de uma referência arménia. Mas passos estão a ser dados. As sanções à Rússia, a tensão geopolítica atual e a necessidade de fazer a economia descolar estão a fazer com que o Executivo arménio, em conjunto com entidades privadas, tente criar estratégias que abram novos mercados para os produtores daquele país, que se adjetiva de “a região vinícola mais antiga e mais recente” do mundo. A determinação, aliada a produtores que investem em técnicas inovadoras, entendem o perfil de vinho preferido por cada geografia e estão empenhados em fazer vinhos premium, o que está a animar o setor.

No ano passado, os vinhos arménios conquistaram várias medalhas no CMB (onde todas as provas são às cegas) e surpreenderam os jurados. Este ano, os resultados ainda estão por conhecer - serão revelados no dia 10 de junho - mas uma coisa o Executivo arménio já garantiu: centenas de especialistas do mundo inteiro entendem, agora, como é que este novo ator está a posicionar os seus produtos numa economia incerta, e numa altura em que o consumo de vinho não para de cair, globalmente.

*A jornalista viajou para a Arménia a convite do Concours Mondiale de Bruxelles

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