Foram precisos dois anos para Alexandre
Caldas, 39 anos, tomar uma decisão: aos 18, decidiu deixar de
estudar e começar a trabalhar a tempo inteiro na Arcalo, a fábrica
de mobiliário que o pai tinha comprado depois do 25 de Abril.
Alexandre estava decidido a trabalhar no ramo, só que, explica ao
Dinheiro Vivo, o generation gap fez das suas. Uns anos depois, as
ideias eram muito diferentes das do pai, Manuel Caldas, e Alexandre
decidiu afastar-se e criar a sua própria empresa. E levou consigo um
projeto: a cadeira Gonçalo, modelo emblemático da fábrica que
vinha há anos ora a perder ora a recuperar prestígio.
"Cresci a ver a cadeira renascer. No
primeiro ano vendemos sete ou oito. No segundo 300. E foi sempre a
aumentar", conta dos anos em que trabalhou na fábrica. "Fui
insistindo sempre para o meu pai avançar com uma adaptação, para
apostar na peça. E ele recusava." Ao longo do tempo, a Gonçalo
foi-se tornando um dos principais motivos de desavença.
Quando saiu da empresa e montou o
negócio, esperou tempo suficiente para não lhe pesar na consciência
o facto de concorrer diretamente com o pai. E, ainda que o currículo
não inclua o design como formação, Alexandre tem-no no sangue. No
início deste ano, resolveu, com a mulher, Soraia Rangel Caldas, 32 anos, lançar a
AROUNDtheTREE, um projeto que estava a ser pensado e construído há
mais de um ano e meio. "Queríamos criar algo diferenciador para o
mercado mas que ao mesmo tempo tivesse uma história", explica
Soraia, formada em Marketing e Publicidade. Para o lançamento da
marca - o nome inglês foi pensado desde o início como um passo na
estratégia de internacionalização - registaram a patente da
Gonçalo de madeira (a da cadeira de ferro pertence à empresa do
pai) e reinterpretaram a cadeira histórica, com um modelo feito em
madeira e cortiça, chamando-lhe Portuguese Roots.
"Queríamos desenvolver um projeto
mais ecológico, moderno e que usasse matérias-primas alternativas e
originalmente portuguesas num modelo de cadeira que era um ícone e
tinha uma forte identidade. No fundo, uma forma de valorizar a
cadeira e torná-la conhecida a nível internacional", acrescenta
Alexandre.
Adaptar o modelo de ferro à madeira e
à cortiça foi o maior desafio do processo, que incluiu contactos
com especialistas em trabalhar as matérias-primas e muitos testes. O
passo seguinte implicou um investimento de cerca de 45 mil euros em
capitais próprios para criar a linha de cadeiras e ter a Portuguese Roots como ícone da marca e da estratégia de
internacionalização.
O retorno do investimento deve ser
assegurado até ao final deste ano, se as expectativas se cumprirem:
a cadeira será a peça-chave de um novo restaurante em Paris e a
Portuguese Roots concorre aos prémios de design da revista britânica Design
et al (vote aqui). "Queremos que a AROUNDtheTREE esteja nos sítios mais
especiais. Queremos que não seja mais uma marca mas "A" marca;
que seja "A" cadeira." As cadeiras da Around the Tree têm
ainda padrões de cortiça impermeável exclusivos para a marca. Em
Portugal, custam 570 euros+IVA.