Começámos a ouvir recentemente falar deste universo paralelo do Metaverso, mas, na verdade, o termo já tem mais de 30 anos. Nasceu do imaginário do escritor Neal Stephenson, num livro intitulado "Snow Crash", publicado em 1992. A obra é sobre uma personagem - um Samurai - cuja ocupação principal é entregar pizzas no mundo virtual.
O tema do Metaverso está a gerar uma enorme curiosidade, nomeadamente sobre se irá ser uma nova realidade na nossa sociedade ou apenas uma "explosão" temporária.
A história vem-nos mostrando que nunca existem certezas absolutas quando determinados temas começam a "explodir". Por exemplo, as bitcoins, lançadas há vários anos, conheceram um crescimento explosivo em 2020, criando uma enorme expectativa positiva do mercado, quando - um ano depois - voltariam a ter uma queda explosiva.
No início de março, a Superbrands teve a oportunidade de juntar alguns profissionais das Marcas para um episódio de Brandstormings, em que se procurou perceber as visões de Marcas que arriscaram emergir nesta "realidade" numa fase em que não existem certezas quanto à importância que o tema irá ter.
O que é o Metaverso? Será a base de um mundo futurista e utópico? Uma realidade que visa unir dois mundos: o digital e o real? Será o digital o futuro real?
Todos os convidados partilham a visão de que o Metaverso não é um conceito novo, mas sim uma democratização e um hype que vai sendo dado. É também um mundo bem conhecido dos gamers e da geração mais nova onde se abrem novas possibilidades. Um ambiente virtual imersivo, resultado da fusão entre a realidade virtual, a realidade aumentada e os hologramas, num ambiente cada vez mais sensorial através de aparelhos como os óculos 3D, cadeiras e auscultadores, fazendo com que uma ampla experiência sensorial.
Um dos temas que mais se questiona é sobre a razão das Marcas procurarem entrar nesta nova realidade? Ao colocarmos esta questão, procurámos ouvir visões distintas de profissionais ligados a Marcas, que tomaram a iniciativa de entrar nesta "realidade", ainda num momento "inicial" da realidade.
Na perspetiva de Francisco Matos Chaves, diretor de digital da ALTICE Portugal, a primeira operadora móvel portuguesa a entrar no Metaverso, esta é uma oportunidade de se aproximar do público (e não apenas dos clientes), através da inovação e humanização, mostrando, através de uma casa totalmente equipada com as funcionalidades da Marca, e com todos os produtos e serviços, muitas vezes desconhecidos.
Na visão de António Mendes, diretor da RFM, a entrada no Metaverso permite potenciar a Marca através de experiências, não apenas para os ouvintes. Um exemplo disso, é o tema do "Oceano Pacífico" - um dos programas mais antigos e mais "históricos" da antena radiofónica em Portugal - que no Metaverso pode ser ouvido numa praia, à noite, uma "experiência" no oceano virtual, disponibilizada aos ouvintes, num ambiente que leva as pessoas a viajar, numa aura de bem estar, característicos do programa.
No entanto, como em tudo, existe o lado reverso da medalha. O Metaverso não pode ser completamente desenquadrado do ambiente de gaming e, para isso, é preciso estudar e aprender mais sobre este novo modelo. Nesta matéria é de realçar a visão de Carolina Afonso (CEO do Gato Preto) que relembra a importância de não cometer o erro tantas vezes feito, ao assumir - na passagem da publicidade de televisão para o digital - que bastaria usar o mesmo modelo, o mesmo tipo de comunicação, sem se fazerem alterações.
Plataformas diferentes exigem estudos diferentes, medidas diferentes e formas distintas de comunicar adequadas a necessidades e públicos distintos. Por isso, quando o Gato Preto lançou a coleção "New cats on the block" em NFT´s, estudou exaustivamente este novo mercado, o que são NFT´s, com que moeda se transaciona neste mundo digital e como se relacionam as pessoas virtualmente.
Quando se arrisca uma entrada num novo "mundo" não é apenas o nome da Marca que está em causa, mas toda a sua reputação. Nesta fase embrionária da realidade do Metaverso, onde já se encontram algumas Marcas, falhar é permitido, como afirmou António Mendes (RFM). Estamos ainda numa fase de aprendizagem, existindo inúmeras possibilidades e oportunidades que nos permitem olhar para a tecnologia e criar experiências que se cruzem com a Marca. O importante, neste momento, é estar atento às potencialidades e como tirar partido delas, não as olhando apenas com receio, mas com a consciência de que estamos num momento de grande salto tecnológico, com impacto e consequências para as Marcas.
Em abril de 2020, o rapper norte-americano, Travis Scott, juntou cerca de 20 milhões de utilizadores num concerto online que durou apenas alguns minutos. Com estes e outros dados semelhantes, cresce a pergunta se o Metaverso tem efetivamente a capacidade de lançar artistas ou de substituir os eventos "reais" para o espaço digital. Francisco Matos Chaves entende que a plataforma ainda não tem o mesmo nível de disseminação de conteúdos para novos artistas, como têm, por exemplo, o Youtube ou o TikTok. Tal como também acredita que não se vá substituir uma ida a um concerto, a um museu ou a um jogo de futebol, apesar de acreditar que ambas as experiências se podem complementar.
Neste universo paralelo, onde pessoas podem interagir através dos seus avatares, criar relações, comprar bens e viajar, onde o que se espera é que os utilizadores não sejam apenas espectadores, mas que se envolvam façam parte do ambiente, há algumas preocupações que se levantam. Por exemplo, a vertente digital do Metaverso, desperta sensações "reais" que muitas vezes levam a uma desilusão, a depressão, angústia e solidão na vida real.
A visão das várias Marcas sobre este "novo mundo" é semelhante: não se sabe até onde será possível ir, mas será seguramente um caminho que ainda agora começou. Por isso, as Marcas podem tentar explorá-lo, mantendo a sua identidade e coerência, numa estratégia que ainda será apenas encarada como futurologia. O que se sabe por agora, é que se o público lá está, é para lá que algumas Marcas irão arriscar caminhar. O verdadeiro impacto, só mais tarde se saberá.
Pedro Diogo Vaz, country manager Superbrands Portugal