As oficinas da TAP: o último desafio de Fernando Pinto

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As oficinas de aviões têm tudo o que as outras, as dos carros,

têm: mecânicos, ferramentas, tintas, parafusos e peças de vários

tipos, lubrificantes, chapas, rodas, avarias para arranjar, revisões

para fazer. Claro, o tamanho é outro - o hangar principal das

oficinas da TAP no Rio de Janeiro tem 15 mil metros quadrados, um

teto a 29 metros de altura, cabem lá dois Airbus 380, os maiores

aviões do mundo. Visto do ar, o hangar parece um armazém que sofre

de gigantismo ou faz parte do cenário de Alice no País das

Maravilhas. Visto de perto, a arrumação e a limpeza também não

fazem parte do filme das oficinas normais. Nem sequer há o habitual

calendário motivacional da Pirelli, nem o rádio a soltar música

sertaneja.

Não podemos esquecer que estamos no Brasil, mas também neste

detalhe esta oficina é diferente. O negócio que Fernando Pinto

comprou à Varig em 2006 é mais do que uma oficina onde se arranjam

alguns aviões. A TAP Engenharia & Manutenção tinha 27 bases

distribuídas pelo Brasil inteiro quando mudou de mãos. Estava

sobredimensionada para a nova realidade: onde a Varig aterrava, havia

quase sempre um hangar com oficina, mecânicos, engenheiros,

armazéns. Ou seja, custos, despesas e, claro, muitos prejuízos.

Cuidar da frota da Varig consumia 80% do tempo da empresa. Era

essa a sua razão de ser. Quando o negócio foi vendido à TAP por 15

milhões de de euros, esse volume de trabalho - e a receita que lhe

estava associada - desapareceu de um dia para o outro, de repente,

mas a estrutura manteve-se: mais de três mil funcionários diretos,

algumas centenas de trabalhadores ocasionais e precários e as tais

operações em 27 cidades. Sem os aviões da Varig, subitamente todos

aqueles recursos foram transformados em hangares fantasmas, sem

trabalho, sem aviões, só com pessoas paradas. À espera.

Fernando Pinto avançou: cortou do mapa 24 bases, manteve apenas

as do Rio de Janeiro - ainda hoje a principal da operação - e a de

Porto Alegre. Inicialmente a de São Paulo ainda se aguentou uns

tempos, mas perante a evidente falta de encomendas e tantos braços

cruzados, também acabou riscada do mapa. Os recursos humanos vieram

a seguir: emagrecimento forçado, com protestos dos sindicatos,

tensões, dramas pessoais. "Foi um período muito duro",

lembra Antônio Eick, gestor de toda a manutenção de aviões no

Brasil. "Mas não havia outro caminho. A Varig tinha sido uma

grande companhia, mas para o fim foi tudo muito mau. A nossa

credibilidade estava em xeque." Credibilidade significa

confiança - sem ela, o negócio da assistência aos aviões

desaparece.

Em Portugal, os sindicatos da TAP também se mostravam

apreensivos. Não percebiam a racionalidade do negócio. Receavam que

a unidade de engenharia e manutenção brasileira, com uma base

salarial claramente mais baixa do que a portuguesa, deslocalizasse

trabalho de Lisboa, o que acabaria por implicar despedimentos em

Portugal. Fernando Pinto recusou sempre esta possibilidade e focou a

equipa de gestão na obrigação de emagrecer os recursos humanos,

sim, mas apenas no Brasil, até reduzir o quadro mil pessoas, para as

duas mil. Mesmo com este corte, perante a crise da aviação em 2008

e a ausência de encomendas, foi preciso reduzir as horas de trabalho

diário para baixar mais os custos. Mas os prejuízos continuaram.

Nunca pararam. Todos os anos, desde que foi comprada, as contas

mantêm-se no vermelho. No ano passado, 67 milhões de euros; em 2010

foram 74 milhões. Para quem esperava ter lucros em 2007, logo no

primeiro ano de gestão, a história saiu furada.

A privatização

Os prejuízos ainda hoje têm outra justificação. Além da falta

de encomendas, que tem vindo a ser corrigida - há dois anos, a taxa

de ocupação dos hangares era de 45%; no ano passado saltou para os

60% e em 2012 a previsão aponta para os 72% -, a verdade é que o

custo por hora de assistência caiu por causa da Grande Recessão. A

partir de 2008, os preços entraram em depressão. As companhias

aéreas, vulneráveis aos ciclos económicos mundiais, reduziram os

custos onde puderam. Manutenção, sim, mas só a essencial, nada de

extravagâncias. Além deste vento desfavorável, o real valorizou-se

19,57% nos últimos três anos face ao dólar - o que comeu parte dos

resultados da empresa na reconversão da moeda - e o Brasil passou a

fazer parte do clube dos países em crescimento supersónico, com um

inevitável aumento dos custos salariais. O que deu mais uma facada

numa atividade que, embora não pareça, é de mão de obra

intensiva: 70% dos custos fixos estão nesta rubrica.

O lado bom deste salto brasileiro foi o desenvolvimento da

indústria de transporte aéreo e o surgimento de novos clientes. Por

exemplo, a companhia aérea Azul tem, desde 2010, um contrato de

longa duração com a TAP para manutenção de 31 aviões. A Webjet

tem 25 aviões a ser assistidos no Rio de Janeiro e em Porto Alegre.

A Gol e a TAM, as maiores transportadoras do Brasil, também já

procuram a assistência da TAP. Em breve pode ser assinado um

contrato com a Força Aérea brasileira (47 caças F5), além de o

acordo com a Embraer, o fabricante brasileiro de aviões, ser hoje

mais uma fonte regular de clientes. A canadiana Air Transat (15

aviões) dá à operação uma dimensão transcontinental (a TAAG,

angolana, também é cliente.)

Para conseguir este alcance, a empresa teve de conseguir

certificações. Além dos aviões da Boeing, os da Airbus e da

Embraer fazem parte do cardápio. Cada uma destas certificações

exige funcionários especializados, ferramentas específicas, o que

implica mais investimento. Mas o principal está feito e, com o

mercado aéreo da América do Sul a crescer - as frotas são antigas,

o que ajuda a rentabilizar o negócio de manutenção -, Fernando

Pinto vê nesta tendência a prova de que as críticas à compra

deste unidade não fazem sentido.

"Bobagem. Quem diz isso não sabe do que fala. Este é um

negócio que muita gente quer ter. Somos o oitavo operador mundial"

O turn around da operação está quase feito, diz o gestor da TAP, e

no próximo ano ou no seguinte chegam os lucros. "A privatização

não será, por isso, afetada. Pelo contrário, será valorizada."

Até ao final do ano saberemos se tem ou não razão. Para já, Pinto

quer ganhar a batalha da opinião pública, como fez quando começou

a reabilitação do negócio aéreo da TAP. "Quem acreditava

nessa altura?", diz, com um sorriso desafiante.

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