As tecnologias e a necessidade de uma disrupção positiva

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Desde sempre as tecnologias funcionaram para o melhor e para o pior, não são inócuas e a memória humana é inseparável delas. Para Bernard Stiegler, filósofo francês que estudou em profundidade as questões da inovação tecnológica, as tecnologias não alteram apenas os saberes instituídos, mas também nos alteram a nós.

Originalmente, a web tinha como principal objetivo permitir que aumentássemos a nossa capacidade de agir e pensar. A World Wide Web (www) foi idealizada e implementada pelo CERN, em Genebra, entre 1987 e 1993. Foi com a World Wide Web que a disrupção começou nos anos 1990, como protocolo HTTP que permitia que qualquer pessoa tivesse acesso à Internet para produzir ou consultar sites. No entanto, esta Internet está agora em minoria em comparação com plataformas globais como a Google, Meta ou a Amazon. Esta disrupção tecnológica, efetuada em particular pela Inteligência Artificial (IA), Big Data ou mesmo Deep Learning, conduz-nos a comportamentos miméticos, que acabam por nos levar a uma desaprendizagem generalizada e uma atenção em curto-circuito. Desaprendemos a escrever, a conduzir, a cuidar de nós, a educar, a pensar por nós próprios.

Ao nível da linguagem, esses modelos de Big Data e AI reforçam os comportamentos linguísticos médios. Puramente analíticos e computacionais, produzem entropia, excluindo a diversidade, as exceções e as invenções. Contudo, o pensamento humano não se limita a cálculos algorítmicos, mas retira a sua força e inventividade do imprevisível, do intuitivo, do espontâneo, do inesperado criativo e imaginativo.

Para que a disrupção não seja apenas negativa, as tecnologias devem ser colocadas ao serviço da inteligência integrativa. Tal como o software livre e aquilo que a Internet foi nos seus primórdios, a web deve tornar-se deliberativa e colaborativa e não ficar refém das chamadas Big Five, (Apple, Google, Amazon, Meta e Microsoft), que têm um poder imenso, e cujas intenções virtuosas não têm qualquer peso perante o desejo de vencer a concorrência e acumular fortunas.

Não será fácil romper esta barreira comercial e predatória, porque já nos ultrapassou a todos, e aos poderes económicos e políticos, afetando a inteligência coletiva.

A Google é o resultado de investimentos colossais do poder público, ao longo de décadas, em pesquisa tecnológica. Entre a década de 1980 e o final da década de 1990, mais de 1 bilião de dólares foram investidos em multimédia e inteligência artificial. A Europa deve ter aqui um papel ativo a desempenhar não se contentando em seguir as dinâmicas desenvolvidas pelos Estados Unidos e China, mas, para isso, tem de investir massivamente em pesquisa. Deste modo, precisamos de nos colocar a montante do mercado, onde realmente a invenção surge, e mobilizar investigadores, laboratórios e universidades. Será à custa desses investimentos e da coragem de pensar o digital de forma diferente que poderemos introduzir tecnologias capazes de uma disrupção mais positiva.

Conceição Soares, docente da Católica Porto Business School

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