A exaustão ideológica, o esvaziamento da representatividade, ou protesto contra o sistema, são dinâmicas que levam Ângelo Correia a diagnosticar uma doença nas democracias modernas que, tal como na medicina, é considerada assintomática pelo paciente ser portador de um problema que não exibe sintomas.
Para o comentador de política, professor, ex-ministro e até fundador do PPD que originou o PSD, o sistema democrático enfrenta o risco do carreirismo partidário, num espetro onde coabitam agora partidos tradicionais, populistas, nacionalistas ou emergentes.
Uma doença que considera grave e que é preciso debater para encontrar antídotos quer para as organizações, quer para o país e até para o mundo.
Para Ângelo Correia, quando a democracia deixa de estar assente na representatividade e passa a estar na base da profissionalização da classe política, passa a revelar uma assintonia com todos os riscos que representa o afastamento entre eleitos e eleitores e tal, por sua vez, cria espaço para o surgimento de outros movimentos, como o populismo.
O homem que participou na criação do PPD - Partido Popular Democrático, ao qual aderiu em 1974, afirma que a democracia nasceu com base num processo de representação política. Isto é, há um conjunto de poucos eleitos e muitos eleitores e esses muitos eleitores sentem-se defendidos, representados, num conjunto de pessoas, que nos órgãos fundamentais do sistema político democrático, emitem pareceres, opinião, decisões e fazem-no em nome do conjunto dos cidadãos que representam. É uma base de representação.
O que é que acontece com o tempo de maturação dos sistemas democráticos, questiona e responde, o sistema democrático de representação passou também a incluir ou a traduzir-se, sobretudo, num sistema de profissionalização política. "A representação cedeu à profissionalização e hoje em dia o que temos é um conjunto de pessoas que formalmente assegurando e mantendo a representação, na prática tem como prioridade a gestão de uma carreira pessoal, a sua própria carreira", sublinha. Considera que o sistema democrático passou de um sistema de representação para um sistema de profissionalização política. Em que as pessoas entram nas juventudes partidárias, como mais ou menos formação e rapidamente tendem a escalar todos os processos de subida desenvolvendo capacidades para chegar ao topo.
Para Ângelo Correia, o que isso significa em termos de hierarquias e lealdade? Uma sociedade profissionalizada na política obedece a lideranças e hierarquias. Uma sociedade de representação política tem especialmente ligações político afetivas à população. O tempo fez passar o critério do afeto, da empatia, na relação da representação, para um problema: a gestão de uma carreira e na gestão de uma carreira tem-se sempre em conta, sobretudo, a organização onde se está. "Aliás, mais a organização, do que aqueles que os políticos representam. Como tal, introduzem-se critérios que não existem na representação, tais como, por exemplo, os critérios de lealdade, de dependência, de grupo, de jogo interno, de exibição de poder, de capacidade de gestão de poder, interligado, ou não interligado e tudo isso são fenómenos que escapam à representação", afirma Ângelo Correia.
Assim, o ex-deputado e antigo ministro do PSD e atual comentador televisivo, considera que com o tempo a profissionalização da política levou à criação de uma classe autónoma per si. Já não tem a ver só com as eleições ou com os cumprimentos dos rituais eleitorais que se manifestam, mas com a capacitação do poder de cada um. Conclui afirmando que "tudo isto afastou o profissional da política da representação política".
Ângelo Correia é atualmente membro da SEDES - Associação para o Desenvolvimento Económico e Social e considera que a realidade que descreveu gerou três movimentos.
Primeiro, o movimento de afastamento dos representados pela classe política. O afastamento do povo em relação aos políticos não é um fenómeno falso, é um fenómeno manifesto e evidente. Ainda é mais acelerado consoante a forma como a lei eleitoral se promove a ela própria, ou se apresenta. No caso de Portugal, as leis eleitorais o que fazem, não é eleger pessoas, mas sim partidos: "Raramente a maior parte dos eleitores conhece quem são os potenciais eleitos, porque são listas partidárias. Às vezes conhece o número 1 ou o número 2 por distrito, por círculo eleitoral dessas listas. Portanto, o afastamento dos cidadãos face à relação personalizada, manifesta e representativa do seu representante, cada vez é mais escassa."
Segundo movimento, a classe política responde na mesma, mas cada vez está mais fechada sobre si própria e cada vez está menos aberta no sentido da representação, a que outros da própria representação também acedam aos lugares políticos. "Nem que seja por um período limitado, mas que venham! E nota-se a diferença entre o que existia há 20 ou 30 anos, em que de vez em quando havia pessoas de grande qualidade que vinham quatro ou oito anos servir de ministro, ou deputado e depois voltavam às suas vidas. Agora isso é uma situação quase inconcebível."
Da conjugação destes movimentos, nasce o terceiro, porque o afastamento entre representantes e representados, a criação de carreiras autónomas, os mecanismos de diferenciação e de pouco contacto entre os dois, geram uma assintonia muito forte que leva a uma debilitação muito grande do sentido da representação, considera. "Eu diria que atualmente o problema da representação política é um problema de maior distanciamento entre quem elege e quem é eleito", sublinha.
Para o homem que chegou a presidir à delegação parlamentar portuguesa à Assembleia da NATO, este é um risco que o país enfrenta há muito tempo, mas adianta que não é só um risco de Portugal e os países onde se começa a sentir essa assintonia geralmente tal traduz-se no surgimento de partidos populistas: "Emergem rapidamente. Aparecem formações populistas, partidos totalmente críticos sobre o status quo e a vida democrática. Partidos que não têm a capacidade suficiente de propor alterações ao sistema, mas apenas de denunciar os seus males e tudo isto leva a soluções extremadas de populismos muito evidentes." Tal, para Ângelo Correia, apesar de ser visível há bastante tempo em Portugal, é um fenómeno do séc. XXI, mas considera que noutros regimes políticos, como o norte-americano, por exemplo, ou nalguns países europeus, isso nota-se há mais tempo, só que "nós estamos agora com um vento forte e esse vento é forte em Portugal".
Perante a hipótese de um cenário de eleições antecipadas em Portugal, Ângelo Correia considera que o país corre o risco de ter uma conjugação de fatores que leva à manifestação simultânea de três diferentes fenómenos: "O primeiro está ligado à existência dos partidos políticos tradicionais. O segundo, caracteriza os partidos emergentes, cuja regra essencial é a de suscitar críticas e alterações ao próprio sistema político português e ao seu funcionamento e o terceiro, são os partidos políticos nacionais que assumem uma contestação fundamental à ligação e ao funcionamento do sistema de enquadramento de Portugal na Europa."
Para o também comendador que recebeu a Ordem Militar de Cristo em 1994, tais fenómenos geram problemas diferentes, porque têm expressões diferentes. Uns são partidos eurocéticos, outros são partidos populistas, ou de protesto e há ainda os partidos com maior ou menor tempo de composição ou de decomposição doutrinária. "Há partidos que estão já no limiar, digamos, na curva descendente da sua existência política, dada a exaustão da doutrina que tinham, por exemplo, o caso do partido comunista português. Outros, são partidos que tiveram uma origem histórica, nomeadamente os partidos sociais-democratas e socialistas, através do movimento socialista europeu (de um modo geral) ou tiveram o seu berço nas formulações liberais ou democrato-cristãs. Mas... hoje em dia há uma alteração profunda de todos esses espetros. Não há estabilidade doutrinária, nem organizativa, por consequência, da maior parte dos partidos políticos.
Para Ângelo Correia, o caso mais evidente, são os partidos socialistas democráticos de esquerda que deixaram completamente ao abandono tudo o que é a visão do proletário tradicional, tudo o que em geral, vinha da classe operária: "São partidos que substituíram rapidamente a representação da classe operária por um movimento, completamente distante, de assimilação e defesa de minorias. É o conjunto das minorias que é o seu cenário base de representação e não a classe operária e não, por exemplo, um movimento trabalhista. Tudo isto alterou formalmente e fundamentalmente os partidos socialistas, pois a ligação ao movimento do trabalhador é totalmente distinta daquela que era há 40 ou 50 anos ou mesmo na sua génese."
Perante o retrato que faz do país e questionado sobre um olhar de caminhos a seguir, o professor convidado do ISCSP, doutorado em Estudos Estratégicos adianta que não tem que ter, nem quer ter otimismo ou pessimismo sobre o futuro, interessa-lhe antes, perceber a história e acima de tudo considera que todos temos que ter espaços de debate, onde abertamente se fale destas questões, porque são graves, emergentes, estão a ter consequências e o país não está a tirar as conclusões necessárias para as perceber e arranjar antídotos. Por isso, considera que este summit é muito importante, porque permite vários tipos de debates sobe temas análogos, mas ao mesmo tempo, permite perceber o que é hoje em dia uma liderança.
"O que é hoje um líder? Qual o significado de uma liderança política ou organizacional ou o que se quiser? Quando se fala de liderança tem que se falar obviamente da organização que se lidera e os mecanismos de ascensão, de filiação, de funcionamento e de representação de uma sociedade são extremamente importantes, logo, encontrar um problema e reconhece-lo é a primeira fase e é o que vamos tentar fazer. Isso é positivo, porque é a única forma de encontrarmos solução. Só há solução para algo que nós reconhecemos como problema."
Ângelo Correia remata em jeito de conclusão de conversa que as dinâmicas que enunciou são dinâmicas, que estão em mutação e centra-se na questão geracional que se coloca à Europa.
Considera que os deficits geracionais que se estão a colocar no velho continente por um lado, estão a envelhecer a base de apoio das populações e estão, ao mesmo tempo, a criar expectativas às imigrações "fáceis" que vão desestruturar completamente a identidade dos povos.
Para o também consultor de diversas entidades empresariais e sociais, consultor honorário do Reino Hashemita da Jordânia em Portugal e presidente da Câmara de Comércio e Indústria Árabe Portuguesa, um país que reconheça que tem falhas e diga que tem falta de mão-de-obra, pronto a abrir portas a quem quer que seja para suprir essa necessidade, se o fizer está claramente a encontrar uma solução, mas também deve evitar problemas como a "desestruturação" da identidade dos povos.
Ângelo Correia conclui a ideia, dizendo que "nessa altura, para quem vier, não é obrigatório ser reconhecido como portador dos mesmos valores civilizacionais sobre a maneira de estar na vida ou ter os mesmos objetivos existenciais. Por isso, é preciso pensar como se harmoniza esses aspetos da relação dos que estão, os autóctones e os que vêm, os imigrantes. "
Deixa no ar algumas questões: "Como se moldarão, como haverá entrosamento, como é que a multiculturalidade que se expressa, será suficientemente intrusiva para criar aspetos que lhe permitam sobreviver dignamente de uma maneira o mais aberta possível a muitos? Ou, pelo contrário, vamos criar colónias interiores? Daquelas dentro dos estados, em que de um lado estão os autóctones, aqueles que tem vivido culturalmente de uma maneira, dentro dessa sociedade e agora com outros, a quem não se reconhecem direitos específicos? Que chegam ao país e a quem não se abrem portas de uma possível assimilação cultural?"
Estes são alguns dos temas que irá abordar no QSP Summit deste ano, frisando que "este é um momento de tantas angústias e tantas dificuldades, que é preciso abordarmos estes problemas, antes de se decidir politicamente, porque a decisão apressada é errada e pode criar fatores de bloqueamento insuperáveis".
Por isso, acredita que quanto mais debates houver sobre questões, às quais nem sempre se reconhece gravidade, melhor, pois é sinal que "temos momentos de lucidez, de abertura, de genuinidade e que pensamos em conjunto, como nos vamos organizar para o futuro".