Ativos do Grupo Névoa "têm um forte impacto na economia local"
O DN/Dinheiro Vivo falou com Mónica Paiva, diretora de Retail do Grupo Névoa, sobre a visão estratégica do grupo para os próximos anos. Nesta entrevista, A responsável pela área do retalho do conglomerado bracarense detalha como o grupo está a requalificar e otimizar o portefólio — entre centros e retail parks — para responder à evolução dos hábitos de consumo, integrar canais digitais e físicos e atrair operadores de referência. Aborda ainda o papel dos seus ativos na dinamização económica local, a criação de emprego e as prioridades em matéria de sustentabilidade e financiamento, oferecendo um retrato pragmático da recuperação e crescimento sustentado do setor.
Em poucas frases, como define a missão e a visão estratégica do Grupo Névoa atualmente?
A missão do Grupo Névoa na área de retail é desenvolver e gerir ativos comerciais com forte ligação aos territórios onde se inserem, contribuindo para o seu desenvolvimento económico e social. A nossa estratégia assenta numa lógica de investimento de longo prazo, em que os ativos não são estáticos, mas sim espaços comerciais em permanente evolução, capazes de se adaptar às dinâmicas de consumo e às necessidades das comunidades.
Quais os resultados do último exercício e que objetivos estratégicos têm para 2026 e para os próximos três a cinco anos?
O último exercício refletiu a resiliência do portefólio e a consolidação da recuperação do setor, com melhoria consistente dos indicadores operacionais, nomeadamente da taxa de ocupação, atualmente superior a 90%, e da performance do portefólio. Para 2026 e os próximos três a cinco anos, a prioridade passa pela consolidação e modernização do portefólio existente, melhoria do seu posicionamento comercial e identificação de novas oportunidades de investimento seletivo, mantendo uma disciplina de capital e foco na criação de valor sustentável.
Qual o peso atual do comércio físico nas receitas do Grupo e como o conciliam com canais digitais?
O comércio físico mantém um peso estrutural muito relevante no portefólio, sobretudo pela sua dimensão experiencial e de proximidade. Não o encaramos como concorrente do digital, mas como complementar. O consumidor atual é omnicanal, e os nossos espaços comerciais têm evoluído para integrar essa realidade, através de soluções que aproximam o físico do digital e melhoram a conveniência para o consumidor, enriquecendo a experiência de visita. As marcas presentes no nosso portefólio têm uma forte presença digital e os consumidores utilizam frequentemente os canais online para pesquisar produtos e planear a visita às lojas físicas.
Quais os critérios que privilegiam ao decidir uma nova aquisição ou projeto de reabilitação?
Privilegiamos ativos com localização estratégica, capacidade de geração de fluxo, potencial de reposicionamento e margem de valorização. No caso de projetos de reabilitação, avaliamos sobretudo a capacidade de valorização do ativo no mercado, o reforço da sua competitividade comercial e a sua relevância no contexto urbano onde se insere.
Pode quantificar (n.º de centros, m² comerciais, investimento anual aproximado) a expansão feita no último ano?
O Grupo Névoa é proprietário de quatro centros comerciais e cinco retail parks, totalizando mais de 150 mil m2 de Área Bruta Locável (ABL), cerca de 370 lojas e uma taxa média de ocupação de 90%. Integram o portefólio ativos como o Shopping Cidade do Porto, Mira Maia Shopping, Ferrara Plaza e Campera Outlet, assim como vários retail parks, incluindo o Braga Retail, o Beja Retail, Darque Retail, Queluz Retail e Melgaço Retail, entre outros. Com abertura ao público prevista para o final de julho, o Beja Jardim encontra-se na fase final de construção e reforçará a presença do Grupo Névoa em Beja, com o Beja Jardim, e com a introdução de insígnias como Mercadona, Action e Normal, entre outras que completam um mix comercial atrativo para a comunidade local e para a região. A estratégia de crescimento tem sido assente de forma prioritária na consolidação e valorização dos ativos existentes em vez de uma expansão quantitativa acelerada, privilegiando investimentos criteriosos, com uma perspetiva de retorno a longo prazo.
Como avalia o impacto económico local (emprego, dinâmica do comércio) das suas intervenções nos territórios onde opera?
Os nossos ativos têm um forte impacto na economia local, assumindo um papel dinamizador da economia local. Geram emprego, com cerca de 2.500 postos de trabalho diretos e indiretos, atraindo investimento e contribuindo para a vitalidade do comércio envolvente. Os espaços comerciais do Grupo Névoa procuram afirmar-se como motores de desenvolvimento urbano e económico nos territórios onde estão presentes.
Que mudanças de consumo observaram nos últimos anos e como adaptaram os centros a essas mudanças?
O consumidor tornou-se mais informado e seletivo, valorizando cada vez mais a experiência, a conveniência, os serviços e o tempo de permanência nos espaços. Esta evolução tem levado a uma maior procura por ofertas complementares ao retalho, como lazer, restauração e serviços e, neste sentido, temos vindo a reforçar a componente experiencial dos nossos espaços comerciais, alargando a oferta e adaptando continuamente os espaços às novas necessidades dos consumidores, promovendo atividades que incentivam a participação ativa dos mesmos.
Que iniciativas têm para melhorar a experiência do cliente (digitalização, serviços, eventos, sustentabilidade)?
Temos investido na modernização da experiência do cliente através da melhoria da informação em tempo real, da realização de eventos e de iniciativas de ativação comercial. Em paralelo, a sustentabilidade tornou-se um eixo estratégico da gestão do portefólio, tanto ao nível operacional como na relação com parceiros e comunidades. No âmbito da sustentabilidade, destacam-se a instalação de painéis solares, a utilização de águas freáticas e a substituição da iluminação por tecnologia LED, entre outras medidas. Paralelamente, foi introduzido o sistema ColorADD em vários centros comerciais, como o Mira Maia Shopping e o Ferrara Plaza, assim como a adoção de uma política pet-friendly.
Que tipo de marcas procuram atrair (internacionais, nacionais, locais, retalho de conveniência, lazer)?
Procuramos uma oferta diversificada que combina marcas âncora, operadores internacionais capazes de gerar fluxo de visitantes, marcas nacionais consolidadas e conceitos emergentes diferenciadores. Valorizamos igualmente propostas ligadas à conveniência, restauração e lazer, que contribuem para aumentar o tempo médio de permanência e reforçar a capacidade de atração dos nossos espaços comerciais.
Como equilibram marcas âncora com pequenas lojas e conceitos emergentes?
O equilíbrio entre marcas âncora e operadores de menor dimensão é fundamental para a sustentabilidade do ecossistema comercial. As marcas âncora garantem fluxo e estabilidade, enquanto os operadores mais pequenos e conceitos emergentes introduzem inovação e diversidade na oferta. O nosso papel é criar condições para que ambos coexistam de forma complementar.
Oferecem soluções de flexibilidade contratual ou incentivos para novos operadores? Quais?
Adotamos uma abordagem caso a caso, com soluções de flexibilidade, como apoio na preparação da loja, carências de rendas até à abertura, rendas escalonadas, entre outras, ajustadas ao perfil do operador e ao potencial do conceito. Em determinados casos, podem existir incentivos ligados à fase inicial de operação, sempre enquadrados numa lógica de sustentabilidade do ativo e de crescimento sustentado a médio prazo.
Como financiam a expansão (capitais próprios, crédito bancário, fundos, joint ventures)?
A estratégia de financiamento combina recursos próprios com recurso a financiamento bancário. O princípio orientador é sempre o equilíbrio entre investimento, crescimento e solidez financeira, garantindo a robustez do portefólio.
Que riscos económicos/financeiros consideram críticos hoje para o setor?
Os principais riscos prendem-se com a evolução das taxas de juro, a pressão inflacionista sobre custos operacionais e a evolução do consumo em contexto de maior incerteza económica. No setor do imobiliário comercial, acresce a necessidade de modernização permanente do portefólio para evitar que os espaços se tornem obsoletos.
Quais são, na sua visão, os principais desafios do retalho e do imobiliário comercial em Portugal hoje?
O setor enfrenta o desafio de redefinir o papel do espaço físico num contexto omnicanal, de atrair e reter operadores relevantes e de garantir a modernização dos ativos. Em Portugal, acrescenta-se ainda a necessidade de escala e de maior capacidade de investimento para competir num mercado cada vez mais competitivo e exigente.

