Maior município do país em dimensão geográfica, Odemira foi o concelho que, segundo o Censos, mais cresceu em população, invertendo a tendência de despovoamento para ganhar 13,3% de habitantes. E os investimentos feitos na última década na agricultura, que gerou mais de 300 milhões de euros de volume de negócios no Aproveitamento Hidrográfico do Mira no ano passado, é uma das principais responsáveis, representando já mais de 60% da atividade económica local.
Mas esse cenário pode estar perto de sofrer nova inversão. E a razão é o enorme atraso na decisão política sobre a água na região, que ameaça afastar novos investidores e fazer fugir os atuais. Os receios são confirmados ao Dinheiro Vivo por Luís Pinheiro, CEO da Lusomorango, a maior organização de produtores nacional do setor das frutas e legumes em volume de negócios.
"Já em 2022 houve uma redução da produção e congelamento de alguns investimentos previstos, que tinham imenso potencial de crescimento", garante. "Estamos a falar de uma área ocupada de 3 mil hectares com alto valor acrescentado, em que se produz um volume de negócios de 300 milhões de euros, dos quais 250 milhões vão para exportação."
Acontece que, entre a seca e a falta de investimentos em modernização e sem decisão política que acelere mudanças - ainda que haja fundos para aplicar -, a viabilidade das produções agrícolas começa a ficar em risco. "O perímetro de rega tem 12 mil hectares, que foram desenvolvidos na década de 60; tem muitos anos e há enorme necessidade de renovação para modernizar a tecnologia usada e minimizar fugas e desperdício que são responsáveis por 35% a 40% da água gasta", explica o mesmo responsável.
Com as alterações climáticas, na última década registou-se menos 30% de precipitação na região, deixando a albufeira de Santa Clara a níveis historicamente baixos. Mas a albufeira tem agora 700 mil m3 de água e é uma reserva estratégica para estes produtores, que se dedicam sobretudo à produção e comercialização de framboesa, amora, mirtilo e morango, tendo atingido no último ano um volume de negócios de 80 milhões de euros em Odemira.
"Nesta altura, ainda não se definiu a dotação média de uso de água para agricultura e há o risco de cair para metade do que tivemos no ano passado", diz Luís Pinheiro, lembrando que a decisão é da tutela (Agricultura e Ambiente). E se rapidamente não se definir nem se adotarem soluções a dois níveis - imediato e longo prazo -, o presidente da Lusomorango vê materializar-se aquele que entende ser o mais evidente e premente risco: fuga de investidores e deslocalização de empresas para fora.
O que fazer?
"No imediato, importa garantir que as empresas ficam na região", vinca Luís Pinheiro, reforçando haver neste grupo as melhores referências mundiais, incluindo três empresas líderes que ali fixaram os seus investimentos, atraídas pela qualidade dos terrenos mas também pelas características únicas. "Odemira tem condições edafoclimáticas únicas para a produção de hortofrutícolas, sendo a única região da Europa onde é possível produzir durante os doze meses do ano produtos de elevada qualidade reconhecidos globalmente."
Com tecnologia moderna e o know how atual, que permite praticar uma agricultura mais eficiente e otimizar a gestão do recurso água, todos ganhariam. A estratégia apontada por Luís Pinheiro tem prioridades como a instalação da estação de bombagem da albufeira, que permitiria captar água mais fundo, mas também a modernização dos canais principais de rega, de forma a reduzir as perdas ao mínimo e transformar sistemas de distribuição que ainda são de gravidade em novos, de pressão.
"No verão passado, foi anunciada uma linha de 30 milhões para rega no Mira - isso já permitira ver algum efeito. Mas desde julho não se vê nada. Havendo verbas, elas deviam chegar ao território...", frisa o presidente da Lusomorango. "Não se entende. E o governo não responde sobre a execução desses fundos", acrescenta.
Avanços futuros, com dessalinização
Lembrando a necessidade urgente que a Europa tem de produzir alimentos e as condições excecionais que Portugal para dar resposta a esse repto - que ganhou força com a invasão da Ucrânia -, Luís Pinheiro aponta também investimentos mais ambiciosos, de longo prazo, que poderiam potenciar brutalmente Odemira. E que passam sobretudo por procurar fontes alternativas de água.
"Temos de avançar rapidamente para a dessalinização", defende, avançando que o setor privado tem até estudos de viabilidade prévia para levar ao governo e está verdadeiramente interessado em investir para encontrar uma solução mais rápida que permita recolher e tratar para aproveitar a água do mar. Reconhece porém que, além do enorme investimento necessário, "mesmo imprimindo alta velocidade, esse projeto levaria no mínimo seis anos a estar pronto". Pelo que é preciso arranjar solução para dar resiliência aos produtores agora. E isso passa pela modernização do perímetro de rega, que tem de acelerar a fundo.
Entre outras soluções apontadas, Luís Pinheiro conta ainda uma ligação que complemente o Alqueva, para dar suporte até noutras regiões. Bem como soluções para desviar água do Norte, onde chove imenso, para o Sul, carente de água.
Soluções existem, dinheiro e interessados aparentemente também. Falta a decisão do governo para se poder avançar e saltar as culturas - e o investimento - do Mira.