A pandemia trouxe novos desafios às empresas, que tiveram de se reinventar para manter os negócios e combater problemas, como a falta de matérias-primas e de mão-de-obra. Em Aveiro, a resiliência do tecido empresarial e a forte ligação à universidade, têm evitado que muitas sucumbam.
A ideia perpassou o debate "Panorama atual sobre a produtividade nas empresas", na quinta-feira, no Centro de Congressos de Aveiro, no âmbito do Fórum PME Global, promovido pela Ageas Seguros em parceria com a Ordem dos Economistas.
Em Aveiro, à semelhança do resto do país, a maioria das empresas são "médias, pequenas ou micro" e essas são as "mais vulneráveis", referiu Fernando Castro, Diretor da Associação Industrial do Distrito de Aveiro - Câmara de Comércio e Indústria. Algumas, como as ligadas ao setor da metalomecânica, máquinas e ferramentas eletrónicas, ramos automóvel, entre outras, estão "muito dependentes de mercados externos" e estão a "ter dificuldades em obter matéria-prima, em manter as cadeias de abastecimento e os preços".
Para além disso, há empresas que necessitam de mão-de-obra específica ou intensiva (como a indústria cerâmica e a construção de pás eólicas), que estão com dificuldades em conseguir trabalhadores, relatou Fernando Castro. A isso acrescem outras dificuldades que os empresários há muito reclamam, como "os custos dos combustíveis e da energia". São "muitos problemas que, todos somados, não facilitam a vida", lamentou.
No Rodi, uma indústria que se dedica ao fabrico de lava-louças e componentes de bicicletas, o problema da falta de mão-de-obra, nomeadamente para soldadura e polimento, não é grave, mas existe, contou o CEO Rémy Silva. A empresa, que tem fábricas em Aveiro, Águeda e Vouzela, tem conseguido contornar o problema, por exemplo, indo "buscar pessoas à serra do Caramulo e suportando as despesas do transporte". Na unidade de Vouzela, a empresa está apenas a começar, mas Rémy Silva diz que também ali já se "preveem problemas".
A Rodi, que paga salários "acima do mercado", voltou neste ano a premiar os colaboradores distribuindo "500 mil euros", acrescentou o CEO. É um exemplo da importância que atribui aos trabalhadores.
Segundo Rémy Silva, a empresa tem vindo a crescer, acompanhando a evolução do setor das duas rodas. Já tem as vendas de 2022 garantidas e "encomendas para 2023".
Faltam matérias-primas
A falta de matérias-primas, decorrente dos constrangimentos causados pela pandemia de covid-19, é das maiores dificuldades, assumiu o CEO da Rodi, revelando que há material que tem uma "lista de espera de 400 dias" e que os custos de transporte subiram muito. Em plena pandemia, deixaram de receber material do fornecedor alemão e, entretanto, conseguiram outro.
Também na Altice, revelou o diretor-geral Alcino Lavrador, obter alguns componentes não é fácil, havendo chips que estão com "52 semanas de espera". O principal fornecedor é uma empresa norte-americana com fábricas espalhadas sobretudo da Ásia. "Não há um produtor na Europa", sendo que se pondera a construção de uma, mas o custo é muito elevado.A Altice aposta na investigação para continuar a inovar e, para isso, conta com a sua forte ligação à Universidade de Aveiro (UA).
Também Abel Aguiar, Diretor Executivo para Parceiros e PME da Microsoft Portugal, destacou como a proximidade à UA tem ajudado o tecido empresarial aveirense. Mas o panorama geral é distinto. Regra geral, disse Abel Aguiar, as PME portuguesas têm uma "base tecnológica muito curta", o que dificultou "sobreviver aos confinamentos".
O negócio dos ginásios também enfrentou sérias dificuldades devido à pandemia, explicou Ana Margarida Souto, country manager da BH Fitness Portugal. Em Portugal, "95% das pessoas não pratica exercício físico em ginásios", abaixo de Espanha, por exemplo, onde "13% das pessoas" vão ao ginásio. Mas com a pandemia, os estabelecimentos encerraram e o negócio, como em muitas outras áreas, teve de se reinventar para sobreviver.
E assim se desenvolveram novas modalidades, como "o desenvolvimento de meios no digital e a prática outdoor", revela Ana Margarida Souto. A BH Fitness também procurou alavancar novos projetos, direcionando para outras áreas, como clínicas de reabilitação e ginásios nas empresas, exemplificou.
A Ageas Seguros tem procurado acompanhar os clientes, minimizando os riscos, para que não tenham dificuldades acrescidas. "Quanto mais investimos na prevenção, mais valor acrescentamos ao cliente e mais envolvimento temos com ele", destacou Gustavo Barreto, diretor-geral de Distribuição e Marketing na Ageas Seguros.
A gestão de risco, vincou José Gomes, CEO da Ageas Seguros, "não é só prevenção, há as componentes de saber onde estão os riscos, como impactam e como fazer para os minimizar ou debelar" e a experiência da seguradora é importante para atuar nesta matéria. "Não somos só fornecedores de proteção, também somos consultores", acrescentou.