O Banco de Portugal (BdP) reviu esta sexta-feira em alta a previsão de crescimento do produto interno bruto (PIB) de 6,8% para este ano e em baixa para 2023, arrefecendo nos 1,5%, segundo dados do boletim económico de dezembro face às projeções anteriores, de junho. Também a taxa de inflação é revista em alta, prevendo 8,1% para este ano e 5,8% em 2023, valores acima das estimativas do governo.
"O crescimento da economia portuguesa reduz-se em 2023, após uma variação anual de 6,8% no ano anterior", para 1,5% - quando a projeção anterior era de 2,6% -, expandindo-se a um ritmo próximo dos 2% em 2024 e 2025, destaca o BdP. O crescimento "será contido no primeiro semestre de 2023, num quadro de incerteza global, erosão do poder de compra, aperto das condições financeiras e enfraquecimento da procura externa".
A partir do segundo semestre do próximo ano, prevê-se então que a atividade acelere, "refletindo a expectativa de atenuação das tensões nos mercados energéticos, a recuperação gradual do rendimento real das famílias, a melhoria da procura externa e a normalização das cadeias de abastecimento globais", lê-se no boletim, que aponta ainda que uma absorção maior dos fundos europeus irá também suportar a atividade neste período.
No próximo ano, o consumo privado deverá praticamente estagnar, com um aumento previsto de apenas 0,2% e, ao longo de toda a projeção, deverá crescer em média 1% nos dois anos seguintes. "Em 2023, o aumento muito reduzido do consumo privado está associado à menor almofada financeira das famílias, ao aumento do serviço da dívida e à baixa confiança dos consumidores. A redução adicional da taxa de poupança contribui para conter a desaceleração do consumo privado."
O boletim dá conta, no entanto, de um crescimento do investimento na ordem dos 2,9% em 2023 e de 4,9%, em média, nos dois anos seguintes. Isto depois da desaceleração para 1,3% este ano. "O comportamento contido do investimento empresarial em 2022-23 (taxas de variação de 0,8% e 1,6%, respetivamente) é explicado pelo adiamento de projetos num contexto de elevada incerteza, restrições da oferta - de materiais e mão de obra -, aumento dos custos de produção, aperto das condições de financiamento e abrandamento da procura", segundo o boletim de dezembro.
No que toca à inflação, o supervisor bancário reforça que irá reduzir-se a partir do próximo ano "com a dissipação das pressões da oferta e o enfraquecimento da procura, num quadro de normalização da política monetária". Ainda esta quinta-feira, o Banco Central Europeu (BCE) subiu, como já era esperado, as taxas de juro de referência em meio ponto percentual, situando-se agora a taxa de juro das principais operações de refinanciamento em 2,5%, o nível mais alto desde finais de 2008. A instituição liderada por Christine Lagarde prevê continuar a subir "significativamente" as taxas de juro.
Em relação a Portugal, como já foi dito, o BdP está mais pessimista ao projetar uma taxa de 8,1% este ano e de 5,8% em 2023, quando em junho previa 5,9% em 2022 e 2,7% em 2023. O ministro da Economia, Fernando Medina, no Orçamento do Estado para 2023 previu uma inflação de 7,4% este ano e de apenas 4% em 2023.
A instituição liderada por Mário Centeno conclui, no boletim, que "esta evolução traduz-se numa perda de rendimento real da economia que deve ser partilhada por todos os agentes". E alerta que "nesse contexto, é importante a coordenação das expectativas em torno do objetivo de estabilidade de preços do BCE, assegurando que os aumentos dos salários e das margens das empresas não geram pressões inflacionistas persistentes, com consequências negativas para a competitividade e a estabilidade macroeconómica".