A Daniel Bessa, economista e professor, coube a tarefa de arrancar com o quarto painel da Accounting Summit, dedicado a discutir o futuro da fiscalidade e dos serviços financeiros. Este é um evento promovido pela Primavera BSS, que decorre online desde a passada segunda-feira, e que conta com a participação de 20 especialistas da contabilidade, fiscalidade e área financeira.
Quem está habituado a ouvir o economista, que já foi ministro da Economia, diretor-geral da COTEC e tem ampla experiência empresarial, sabe que "não tem papas na língua" e que "toca nas feridas" quando é necessário. E, como não podia deixar de ser, também no lançamento deste painel, em que participou como orador principal, levantou várias questões pertinentes ligadas à profissão de contabilista. "Eu atrevo-me a classificar o técnico de contas como sendo um "médico de medicina geral" em matéria fiscal e financeira. Este é o primeiro a intervir antes de se chamarem os especialistas. Acho que, em milhares de micro e pequenas empresas em Portugal, a pessoa mais qualificada dentro dessas organizações é, provavelmente, o contabilista. Por isso, sempre defendi que os contabilistas podem puxar um bocadinho pelos serviços que já prestam e oferecer serviços ainda mais qualificados".
Para este economista essa qualificação passa por aproximar cada vez mais a contabilidade à gestão, como, por exemplo, fazer contabilidade analítica, de custos e até orçamentação, pois, acredita, a maioria das empresas não tem estes serviços. "Não sabem por quanto lhes ficam os produtos, não sabem apurar uma margem nos serviços que vendem. Os contabilistas poderiam, por exemplo, aliar a orçamentação ao controlo de gestão. E já temos aqui duas áreas onde milhares de empresas portuguesas não mexem e poderiam fazê-lo com imenso proveito", afirma.
Adiantou ainda, na sua apresentação, que para atuar em todas estas áreas os contabilistas devem ter proximidade com as empresas, o que ainda é possível no mercado nacional, pois quase 70% das sociedades de contabilidade têm menos de três funcionários. Ou seja, a pequena dimensão aqui até é uma vantagem, pois a relação entre profissional e cliente continua a ser muito próxima. Claro que, quando se chega a sociedades de contabilidade maiores, acima da dezena de profissionais, esta função já começa a ser mais difícil de exercer e levanta problemas de confidencialidade, de concorrência, e já se passa para o nível da consultoria fiscal e financeira. O "médico de clínica geral" terá de passar a ser um "médico especialista", com outro nível de especialização, segundo refere.
Relativamente a esta especialização, Daniel Bessa fez um desabafo com a audiência: "li há dias num estudo divulgado recentemente que há, além dos impostos que todos conhecemos, 4.300 taxas de ordem fiscal que incidem sobre as empresas. Que isto se aproximava da demência, eu já sabia, não tinha era noção que a demência era desta dimensão. Acho que alma alguma no mundo consegue lidar com 4.300 taxas, mesmo sabendo que não se aplicam todas às mesmas empresas".
Na questão relativa ao que poderá mudar em termos fiscais no pós-pandemia, Daniel Bessa tocou ainda numa outra «ferida», aberta recentemente: a questão dos fundos comunitários anunciados para o plano de recuperação nacional, a «bazuca financeira» segundo as palavras de António Costa, que atribuirá uma dotação de 58 mil milhões de euros a Portugal até 2029. Ou seja, para este economista pouco deverá mudar em matéria de fiscalidade ou contabilidade, mas alerta para as questões do financiamento, e isso sim, poderá haver aqui algum mercado no apoio dado nas candidaturas aos sistemas de incentivos. "Deixo aqui um aviso: a entrada desse dinheiro trará mais burocracia e trará mais corrupção seguramente, e os indícios estão à vista todos os dias. O essencial deste bolo irá para o Estado, e ficará muito pouco para as empresas. Mas ainda assim, as empresas vão precisar de muito apoio especializado para concorrer a esses fundos, pois haverá situações muito complexas a precisar de aconselhamento na vertente financeira".
Remata dizendo que, no que diz respeito a fusões e aquisições no mercado empresarial, não acredita que a pandemia traga aqui grandes mudanças. Portugal é um país onde faltam empresas de média e grande dimensão - há um défice de empresas que crescem - pois há uma grande pulverização da atividade económica e as empresas nacionais não têm apetência para a consolidação.
Com ele concorda plenamente Luís Leon, partner da Deloitte, que falou no painel de debate sobre o tema, moderado por Camilo Lourenço, e que envolveu ainda Francisco Pereira, associate partner da EY e Rui Almeida, CEO da Moneris. Luís Leon refere que não há mais fusões e aquisições em Portugal por razões histórias, e graceja dizendo que Portugal passou ao lado do século XX, período em que o resto do mundo cristalizou uma sociedade democrata de economia capitalista, no qual os países que cresceram foram aqueles que tiveram economias mais abertas. "Chegamos aos anos 90 com uma economia fechada, sem capital e demasiado corporativa. A mentalidade nacional é a de «prefiro ser rei no meu quintal do que ser duque em algo maior»", explica.
Rui Almeida, que já atravessou um processo de fusão na Moneris, empresa de contabilidade que lidera, refere a propósito que Portugal tem, de facto, um ambiente empresarial extremamente corporativista - existem 18 ordens profissionais -, o que dificulta a multi disciplinariedade da oferta aos clientes. Mas, acredita que a introdução de um novo leque de novas áreas, como a legal, nas empresas de contabilidade é inevitável. "O que fazemos atualmente na empresa, para enfrentar esta necessidade, é estabelecer parcerias pontuais para determinados temas, como foi o caso do Regime Geral da Proteção de Dados".
Relativamente à janela de oportunidades que os fundos comunitários trarão à atividade destas sociedades, Francisco Pereira, da EY, diz que, na área dos incentivos, o panorama instalado é bastante complexo. Porém, estes milhões anunciados podem ser uma oportunidade para esta atividade e "os contabilistas certificados deverão ser o farol para os agentes económicos perceberem se os incentivos se aplicam aos seus projetos", refere. E alerta: "quando ouvimos falar destes milhões, parece que o dinheiro é fácil de conseguir e que as empresas em dificuldades estão a olhar para um oásis. Só que não é assim". Os contabilistas terão aqui uma função adicional de estar bem informados sobre os requisitos e apoiar nas candidaturas.