Salários da Função Pública "deixaram de ser atrativos para os licenciados em início da carreira"

Banco de Portugal conclui que não há qualquer vantagem salarial face ao privado em trabalhar no setor público no caso dos "licenciados em início da carreira (com cinco anos de experiência)", seja qual for o nível salarial em causa.
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"O setor público mantém-se vantajoso em termos salariais [face ao setor privado], especialmente para os licenciados com experiência, mas deixou de ser atrativo no início da carreira", conclui o Banco de Portugal (BdP) num estudo divulgado esta quarta-feira, que atualiza o boletim económico de junho.

No tema intitulado "Diferencial salarial entre os setores público e privado em Portugal" (abre aqui, em pdf), o banco central governado por Mário Centeno começa por observar que "um tema recorrente no debate de políticas públicas sobre o prémio salarial desenvolve-se em torno da sua dimensão relativa entre diferentes patamares salariais".

Os resultados da análise do BdP "demonstram que o setor público continua a trazer uma vantagem salarial significativa para os licenciados, com exceção dos que se encontram no início da carreira".

"Importa então analisar se este resultado se verifica ao longo de toda a distribuição dos salários e, em particular, se o setor público é competitivo nos salários mais elevados", refere o BdP.

No caso dos licenciados com experiência profissional, o diferencial salarial é decrescente e mantém-se positivo ao longo de toda a distribuição no caso de ter 35 anos de experiência, e até ao percentil 80, no caso de ter 20 anos de experiência".

Ou seja, estes resultados "sugerem que as práticas salariais no setor público atenuam a desigualdade salarial relativamente ao setor privado", refere o estudo.

No entanto, o BdP conclui que "não existe um prémio para os indivíduos licenciados no início da carreira (com cinco anos de experiência) ao longo da distribuição salarial".

Ou seja, seja qual for o nível salarial praticado ao nível dos diplomados, trabalhar na Função Pública já não oferece qualquer vantagem salarial face aos ordenados em vigor no setor privado.

Salários ainda tendem a ser mais elevados no público

O estudo do BdP observa ainda que os salários médios são mais elevados no público porque a proporção de licenciados é bastante superior à do setor privado.

Isto apesar das medidas de austeridade aplicada no passado recente, como congelamento de carreiras e cortes diretos nas remunerações que muitos funcionários públicos (veja-se o caso dos professores e dos profissionais da Saúde).

O BdP recorda que "a gestão dos recursos humanos do setor público tem sofrido alterações profundas nas últimas duas décadas".

"A partir de 2007/2008 foram revistos o sistema de avaliação de desempenho e as carreiras, por via da introdução da tabela salarial única" e adicionalmente "a necessidade de reduzir a despesa pública durante o Programa de Assistência Económica e Financeira (PAEF) [da troika e do governo PSD-CDS] levou à adoção de medidas que incluíram cortes salariais temporários e o congelamento de carreiras com impactos mais duradouros".

Ainda assim, tirando o referido caso dos licenciados em início de carreira, o público continua a pagar mais do que o setor privado, em média.

"Os salários no setor público tendem a ser mais elevados do que no setor privado uma vez que muitas das áreas de atuação pública exigem maiores qualificações e em algumas funções públicas, como as de soberania, se privilegia a estabilidade do emprego", aponta o estudo.

"No período mais recente, metade dos recursos humanos do setor público são licenciados (têm ensino superior), o que compara com apenas 20% no setor privado, embora a escolaridade tenha melhorado em ambos os setores."

"O setor público também se distingue do privado pela elevada proporção de mulheres (mais de 60%), por um maior número médio de anos de experiência (mais 4 anos) e por um menor número médio de horas trabalhadas", acrescenta a mesma análise que consta do boletim económico de junho.

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