Esta entrevista faz parte de uma série de conversas que o Dinheiro Vivo/DN teve com enólogos e produtores, em plena época de vindimas, sobre o estado da arte do setor e os desafios dos próximos anos.
A seca prolongada, na sequência das alterações climáticas, está a tornar-se estrutural no setor. Que evidências têm de que o modelo produtivo atual continua a ser compatível com o novo regime climático?
O ciclo de alguns anos seca foi interrompido no inverno 2025/2026 repondo os níveis das barragens à capacidade máxima o que trouxe algum alivio e eventualmente adiou a implementação de algumas medidas. Por enquanto não temos alterado o modelo produtivo mas juntamos ferramentas para otimizar a gestão da água (rega). Sondas de profundidade, sondas de leitura de seiva e estações meteorológicas remetem informação para programas muito avançados que nos permitem otimizar a rega de acordo com as necessidades da planta. Acredito que por esta via ainda temos espaço para melhorias.
Que quebra de produção antecipam - se é que antecipam - este ano e até que ponto essa redução ameaça a viabilidade económica das explorações mais pequenas?
As perspetivas para este ano são de um aumento de produção, no geral do país.
Com custos de água, energia e mão de obra em máximos históricos, que margens operacionais esperam manter? Há risco real de encerramentos ou consolidação forçada no setor?
A pressão associada aos aumentos dos fatores de produção é elevada. Simultaneamente, os consumidores não aceita aumentos de preços pelo que as margens estão a ser fortemente afetadas. Acredito que haja muitos produtores cujo negócio esteja em risco e a consolidação já começa a ser uma realidade.
Como é que a redução de volume e a alteração do perfil dos vinhos afetam a capacidade de competir em mercados externos onde o preço e a consistência são decisivos?
A inconstância de perfil ou grande variabilidade de preços são inimigos do sucesso. Hoje os produtores têm essa consistência e já não cometem alguns “erros” que eventualmente poderiam cometer no passado.
Como se combate esta nova vaga de campanha contra o consumo de vinho, em todo o mundo, mas de forma particular em Portugal onde há cada vez mais vozes a alertar para os efeitos nocivos do seu consumo?
É um tema relativamente ao qual o setor do vinho está sensibilizado há muitos anos. O próprio setor tem feito de campanhas no sentido da moderação do consumo. Desta forma sabemos que a aposta é em “pouco mas com qualidade”.
Que investimentos estão a ser feitos e decisões concretas estão a ser tomadas para adaptar a vinha ao novo clima e à nova realidade de consumo?
Sem dúvida que se aposta em fazer vinhos com menor teor alcoólico e nalguns casos até recorrer a tecnologia para retirar álcool.
Se as condições climáticas e as reduções sucessivas de consumo dos últimos anos se mantiverem, qual é o cenário mais realista para o setor vitivinícola português nos próximos cinco anos?
Inevitavelmente irá haver abandono de vinhas - já há - e redução do número de produtores.
Quais considera serem os principais desafios desta vindima e do próximo ano, para o setor, em Portugal?
Relativamente ao produtores que acompanho, a qualidade das uvas é francamente excecional, pelo que a aposta é em produzir vinhos com qualidade máxima para termos mais e melhores argumentos de venda. O grande desafio está na parte comercial. Portugal tem que conseguir impor-se internacionalmente como um país de referencia enquanto produtor de vinhos de excelência e assim expandir o seu mercado. Se as vendas estiverem bem, toda a fileira ficará bem.