A Protagonista: Marta Feio, secretária-geral na ATIC - Associação Técnica da Indústria de Cimento
A produção de cimento é responsável por 8% do dióxido de carbono (CO2) lançado para a atmosfera a nível global, materializando-se através de dois tipos de emissões - o que poucos sabem. Um terço vem por efeito do uso de combustíveis fósseis, mas a maior fatia, dois terços, decorre no próprio fenómeno químico de transformação do calcário em clínquer, matéria-prima do cimento. Reduzir CO2 neste processo é portanto o grande desafio tecnológico assumido pelo setor. Se não podemos viver sem a indústria cimenteira, como podemos reduzir a pegada? Marta Feio, a secretária-geral da ATIC, reconhece o peso das emissões, mas recorda a importância que o betão, um dos derivados do cimento, tem na qualidade de vida da sociedade moderna. "Trata-se do segundo bem mais consumido no mundo, logo a seguir à água, sendo indispensável na construção de casas e infraestruturas como pontes, barragens, etc.", concretiza. Sendo fundamental, o setor, que já vinha investindo em inovação para dar resposta aos desafios da sustentabilidade, assumiu o compromisso de atingir a neutralidade carbónica até 2050, em linha com as exigências da Comissão Europeia.
Com recurso a processos altamente inovadores, está a ocorrer atualmente a transição nos combustíveis, substituindo-se os de origem fóssil por derivados de resíduos. É um novo sistema de eficiência energética que prevê o aproveitamento das emissões como matéria-prima: o desenvolvimento de tecnologias vai contribuir para a futura captura e utilização do dióxido de carbono no processo de produção de cimento. O desafio é aumentar a capacidade de reutilizar e transformar o CO2. E os objetivos ambiciosos: no roteiro de descarbonização da ATIC, a primeira meta é reduzir em 48%, até 2030, as emissões ao longo da cadeia de valor, estando alocados investimentos no valor de 500 milhões. Entre 2030 e 2050, o investimento previsto é de 1,5 mil milhões de euros para implementar novas infraestruturas de apoio à produção.
Precisamos de apoio público, não só a nível financeiro, mas das próprias políticas, com segurança jurídica para que os investimentos possam materializar-se", resume Marta Feio, apelando ao apoio legislativo célere para enfrentar a realidade da neutralidade carbónica. "Já existem sinergias e partilha de esforços e de conhecimento e diversos setores industriais podem aproveitar todo este trabalho. Importa juntar os players da indústria para perceber quais os pontos comuns e entender como poderão ser criadas, por exemplo, infraestruturas de apoio para transporte de CO2 e hidrogénio", conclui a responsável da ATIC.