Boeing quer comprar Embraer mas Governo Temer não vende

Estado brasileiro dá aval a parceria desde que não perca controlo. Negócio é resposta a avanço da Airbus. Empresa tem duas fábricas em Évora
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As fabricantes de aviões Boeing, dos EUA, e Embraer, do Brasil, anunciaram “uma potencial combinação em bases que ainda estão a ser discutidas” no 'The Wall Street Journal' nas últimas horas de quinta-feira, notícia que suscitou reações em cadeia nos dois países e também no mundo, incluindo em Portugal, onde funcionam, em Évora, duas fábricas da Embraer.

A Embraer, empresa multinacional com sede no Brasil que atua nos segmentos de aviação comercial, aviação executiva, defesa e segurança e aviação agrícola e cujo valor de mercado é avaliado em 3,7 mil milhões de dólares, atualmente é líder na fabricação de jatos comerciais de até 150 assentos e a principal exportadora de bens de alto valor agregado do Brasil. Em Portugal, no Parque de Indústria Aeronáutica de Évora, funcionam duas fábricas da Embraer, sendo que a empresa também é acionista da OGMA (65%), em Alverca.

O The Wall Street Journal sublinhou ainda que o acordo geraria um prémio generoso para os atuais acionistas da Embraer. Os papéis da empresa subiram entretanto 22,5% ao longo das últimas horas na Bovespa, bolsa de valores de São Paulo, o equivalente a três mil milhões de reais, ou seja, 800 milhões de euros.

O passo da Boeing no sentido de controlar a Embraer é tido, segundo a maioria dos observadores, como uma resposta ao avanço recente da europeia Airbus, com a qual luta palmo a palmo pelo mercado no setor das aeronaves, sobre o programa de jatos regionais desenvolvido pela canadiana Bombardier, num negócio de seis mil milhões de dólares. E como uma delimitação de território em relação à chinesa Comac, em trajetória de subida no setor graças à enorme procura de aviões na região da Ásia Pacífico.

O governo brasileiro, dono de uma golden share na construtora garantida desde o processo de privatização da companhia em 1994, avisou de imediato que não aceitará perder o controlo da Embraer. “No meu governo, a Embraer jamais será vendida”, declarou o presidente Michel Temer, segundo fontes presidenciais citadas pela imprensa, apesar dos ministros da área económica do executivo, nomeadamente Henrique Meirelles, titular das finanças e eventual candidato às próximas presidenciais, não ser desfavorável ao negócio.

“Não seria um problema para o governo”, disseram ao jornal 'O Estado de S. Paulo' representantes da ala económica do Palácio do Planalto. Ao jornal Folha de S. Paulo, o sindicato dos metalúrgicos disse por outro lado que a oferta da Boeing é a ocasião ideal para, depois do “não” do Brasil, o governo renacionalizar a empresa.

Apesar do direito de veto que a golden share lhe assegura, o governo brasileiro só é dono de 5,4% da Embraer por intermédio de um investimento do BNDES, banco estatal de desenvolvimento. A empresa, em rigor, não tem um controlador definido: o Brandes, firma de investimentos dos EUA, detêm a maior fatia com 15% das ações, seguida do concorrente britânico Mondrian, com 10,12%, do fundo BlackRock, com 5%, e de centenas de investidores institucionais donos dos restantes 64%.

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