Bolsa quer mais obrigações para particulares

Indiferentes às recentes polémicas com as obrigações seniores do BES, especialistas defendem a colocação destes títulos junto de clientes do retalho.
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“Todos aguardamos, com o coração nas mãos, a chegada do fim do mundo”. O aforismo de Haruki Murakami é citado no filme “A Queda de Wall Street”, que estreia em hoje em Portugal. O mundo sobreviveu à crise do subprime que estalou em 2008 nos Estados Unidos e rapidamente se tornou a maior desde 1929. Os especialistas admitem que os problemas estruturais ainda não foram ultrapassados e não arriscam afirmar que o mundo está imune a uma nova crise. No plano micro, acreditam que as deliberações em torno da resolução do BES não terão impacto na confiança dos consumidores. Chegam mesmo a defender um crescimento do número de emissões obrigacionistas direcionadas para clientes particulares (retalho).

No âmbito da estreia do filme, Luís Laginha de Sousa, presidente da Euronext Lisboa, o consultor João Ermida e ainda José Pereira da Costa, CFO, da NOS, foram ontem os convidados para o debate sobre o futuro e a importância do mercado de capitais na economia, uma parceria entre o Dinheiro Vivo e a operadora de telecomunicações.

A uma só voz, os três especialistas fazem uma retrospetiva da crise do mercado hipotecário retratada no filme. Mais regulação, supervisão, reforço de capitais e menos endividamento são as principais lições da crise. Para o futuro, sugerem um reforço do mercado obrigacionista.

O mercado de obrigações é uma opção a seguir e deveria ser estimulada como uma fonte alternativa de financiamento das empresas e da economia, além de ser uma ferramenta de aforro”, defendeu o presidente da Euronext Lisbon.

A democratização destes títulos de dívida surge numa altura em que o mercado obrigacionista português domina a agenda mediática nacional e internacional. Luís Laginha de Sousa relativiza as críticas em torno da resolução do BES que apontam o dedo a Portugal por estar a abrir um precedente com a retransmissão de 1985 milhões de obrigações seniores – títulos com prioridade de reembolso – do Novo Banco para o BES. Esta deliberação agrava a polémica em torno de outros credores do BES, nomeadamente a ausência de uma solução para reembolsar os mais de 2000 clientes com papel comercial de entidades do universo do Grupo Espírito Santo.

Na opinião do responsável pelo mercado de capitais, estes casos não ameaçam a confiança dos pequenos investidores. E sublinha: "Não quero retirar relevância àquilo que são as consequências complexas e difíceis que cada uma das pessoas lesada sentiu, mas aquilo que o mercado nos indica é que, havendo a oferta adequadas nas condições de preço, o mercado de retalho em Portugal tem-se manifestado disponível para estar presente". Laginha de Sousa acrescenta que não vê "qualquer razão para o mercado de retalho deixar de estar presente".

As criticas da Pimco – segunda gestora de ativos mais penalizada com a devolução de títulos seniores ao BES -, causam alarido mediático, mas estes casos relacionados com o BES “não significam que vamos ter um problema eterno e irresolúvel”.

Para o presidente da bolsa, as emissões lançadas por empresas portuguesas no auge da crise financeira, sobretudo quando a torneira do mercado interbancário foi encerrada, são a prova de que existe procura. Ou seja, “faltam ofertas de investimento atrativas”, o que se prende com a ausência de incentivos fiscais ao investimento de particulares na bolsa e nos títulos obrigacionistas das empresas.

José Pereira da Costa, CFO da NOS, recorda que a operadora recorreu ao retalho. “Fomos criativos. Além das tradicionais operações de financiamento junto de institucionais, recorremos aos particulares”. Para o CFO, a operadora tem inúmeras vantagens em estar cotada. Por exemplo, “a presença no mercado acionista facilita o acesso ao obrigacionista”.

João Ermida, antigo responsável global da tesouraria e dos mercados financeiros do grupo Santander e atual consultor da área de aconselhamento financeiro a famílias na Golden Assets, confessa a reticência em relação aos investimento no mercado bolsista: “Desde julho que aconselho uma exposição a ações baixa”.

Interpretando o comportamento de quatro gestores que anteciparam o colapso global da maior economia do mundo e tiveram a ideia de apostar na crise imobiliária e lucrar com a tragédia, apesar de se “questionarem” sobre a (i)moralidade dos investimentos, os convidados da parceria entre o Dinheiro Vivo e a NOS defendem que mais regulação e supervisão não resolvem um problema mais abrangente: o comportamento ambicioso dos gestores.

O CFO da NOS assume que a operadora não incentiva comportamentos incorretos e garante que os gestores têm o governance sob controlo. Já João Ermida deixa um alerta para este ano: “2016 será um ano díficil e complexo”, ou seja, de “elevado risco”.

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