Bolsonaristas fanáticos contra Bolsonaro

A lista de velhos e novos inimigos de Bolsonaro é extensa e chega aos mais altos níveis.
Publicado a

Ao longo de dois anos de governo, assinalados este mês, Jair Bolsonaro desmoralizou cientistas, ambientalistas, índios, artistas, gays, pacifistas, universitários, jornalistas, professores, vegetarianos, juízes, negros, orientais, presos, imigrantes, mulheres, desaparecidos políticos, nordestinos e médicos, só contabilizando o front nacional.

No front internacional ofendeu Brigitte Macron e o ministro dos negócios estrangeiros francês, insultou Michelle Bachelet, Alberto Fernández e outros líderes vizinhos, atacou Joe Biden e Barack Obama, perseguiu a China, o mundo árabe em geral, o Irão em particular e os governos da Noruega e da Alemanha e criticou Leonardo De Caprio e Organizações Não Governamentais internacionais.

Aos poucos, transformou até ex-amigos em novos inimigos - Joice Hasselmann, a jornalista plagiadora tornada deputada que o defendia com unhas e dentes em campanha; Major Olímpio, o senador que parecia seu irmão gémeo na luta pró-armas; ou Alexandre Frota, o pornográfico parlamentar que desertou quando viu que a família presidencial era filme para muito maiores de 18 anos.

Opinion makers conservadores, liberais e direitistas com cérebro, como Reinaldo Azevedo, Raquel Sheherazade ou Marco Antônio Villa, todos com histórico de ódio cego a Lula da Silva, a Dilma Rousseff e ao PT, também cedo entraram em rota de colisão com os delírios governamentais.

Aliás, o autor do texto do impeachment de Dilma, origem da tragédia que hoje assola o Brasil, chama o presidente que dele desembocou de BolsoNero. E o Movimento Brasil Livre, bando de meninos de classe média assustados com a "corrupção" que lideraram manifs na Avenida Paulista contra os governos de esquerda, hoje ridicularizam o chefe de estado nas redes sociais.

João Doria e Wilson Witzel, respetivamente governador de São Paulo e do Rio de Janeiro, de bolsonaristas convictos passaram a anti-bolsonaristas categóricos.

Há ainda o caso do ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta que ficou pasmado com o negacionismo, a insensibilidade, a ignorância, em suma, a cretinice presidencial no combate à pandemia. E o do titular da justiça, claro, o incensado Sérgio Moro que se chocou por aquele que ele escolheu como exemplo de político anti-corrupção ter aparelhado a polícia de forma a salvar os filhos acusados de desvios.

A lista de velhos e novos inimigos de Bolsonaro é extensa, portanto.

Quem sobrou? Olavo de Carvalho, o guru do presidente para quem existem 200 grupos económicos interessados em dominar o mundo, uma ideia, iniciada no século XIX e desenvolvida por intelectuais contratados pela família Rockefeller, que consiste na eliminação de automóveis com motoristas e de dinheiro em papel para controlar, numa fonte central, os itinerários e as transações financeiras de toda a gente.

Silas Malafaia, o líder protestante que celebrou o terceiro casamento do presidente, que diz amar homossexuais como ama assassinos, que ameaça fiéis que decidam denunciar pastores ladrões e que pede um aluguer dos crentes como dízimo porque só assim eles conseguirão comprar casa própria.

E Sara Winter, que de radical feminista - chegou a organizar um ato em que castrava simbolicamente o então deputado machista Bolsonaro - passou a líder de uma milícia armada a favor do governo.

Pois já nem eles sobram mais: em prisão domiciliar por ter atacado a sede do Supremo, Sara chama Bolsonaro de "praga" e diz-se "cansada" por não ter sido defendida por um governo pelo qual deu "a vida".

Malafaia chamou de "vergonhosa" a decisão de Bolsonaro de escolher um católico para uma vaga no Supremo em vez de um juiz "terrivelmente evangélico", como prometera.

E Olavo decretou que "Bolsonaro é um fracasso vivo na luta contra o comunismo", ainda a propósito da escolha daquele magistrado.

De tanto criar inimigos, o presidente do Brasil um dia acabaria por criar os inimigos certos.

Jornalista, em São Paulo

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt