"Fome para valer no Brasil, não existe", disse Jair Bolsonaro, a meio da campanha eleitoral que perderia a 30 de outubro de 2022. "Quem for a qualquer padaria, não vê ninguém pedindo para comprar pão, isso não existe", acrescentou noutro momento. "Pelo contrário, cada vez mais o mundo olha para nós, o mundo, sem o Brasil, passa fome", assegurou em comício.
Mas Bolsonaro e os factos sempre tiveram uma relação difícil, quase impossível, como se sabe.
Um inquérito nacional sobre insegurança alimentar no contexto da pandemia no Brasil, da Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar), provou que 33 milhões de compatriotas do anterior presidente da República passavam fome à época daquelas declarações.
Em paralelo, uma pesquisa Datafolha, feita de forma presencial, apontou que um em cada três brasileiros afirma que a quantidade de comida em casa nos últimos meses não é suficiente para a família. Segundo o levantamento, o percentual de lares com uma quantidade insuficiente de comida subiu de 26% em maio para 33% em julho.
E um relatório da ONU, de julho, concluiu que, no Brasil, 61,3 milhões (quase um terço da população) convivem com algum tipo de insegurança alimentar. Em dados comparáveis, o país que suportou a catástrofe bolsonarista é o que tem mais pessoas com algum grau de insegurança alimentar, moderada ou grave, nas Américas e o quinto no mundo, naquele período. O estudo também apontou um aumento significativo na comparação com o intervalo de 2014 a 2016, quando o número dos que passavam por algum nível de insegurança alimentar era de 37,5 milhões.
Mas Bolsonaro não melhorou a vida de ninguém? Melhorou sim.
Em simultâneo com os recordes de pobreza, o seu governo produziu, em apenas três anos, um número impressionante de milionários: de janeiro de 2019 a dezembro de 2021, o país registou 2,1 milhões de pessoas com rendimentos anuais acima de um milhão de reais (perto de dois milhões de euros).
Enquanto aquele terço de brasileiros mergulhava na pobreza, 562 mil brasileiros, o equivalente a 1% da população, entravam para o clube dos muito ricos, de acordo com as declarações de imposto recebidas pela Receita Federal, o fisco brasileiro.
O aumento da riqueza entre os muito ricos começou a partir do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Tanto o ex-presidente Michel Temer, que a sucedeu, quanto Bolsonaro conduziram políticas pró-mercado. Entre 2003 e 2014 -período que compreende os dois mandatos de Lula e o primeiro de Dilma - os brasileiros com mais de um milhão em rendimentos passaram de 18,5 mil para 29,8 mil, 0,1% da população, e concentravam-se nas regiões mais industrializadas, São Paulo e outras.
Com Temer e sobretudo Bolsonaro, a nova geografia da riqueza concentrou-se em estados atrelados ao agronegócio, eleitoralmente conservadores e bolsonaristas.
Enquanto Lula falou na campanha de combate à fome e acenou com o período do seu governo em que 40 milhões saíram da pobreza para a sociedade de consumo, Bolsonaro preferiu fugir da realidade, como fugira da covid.
Não é de estranhar, pois, que o primeiro tenha ganho as eleições. Estranho é pensar que o segundo tenha tido votos além do tal 1% que enriqueceu com ele.