País mais protecionista do mundo - desde 2008 nenhum governo criou tantas medidas de salvaguarda no planeta como o brasileiro e das 154 medidas protecionistas mundiais do ano passado um terço partiu de Brasília - o Brasil começa a entender o lado perverso do "orgulhosamente sós" salazarento.
Esse "orgulhosamente sós" tem-se refletido numa outra área, o futebol , com os resultados conhecidos.
Ao contrário do mundo da bola desenvolvido, no Brasil ainda nem há Liga de Clubes. É a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) - entidade cujo atual presidente, Marco Polo del Nero, não sai do país porque tem medo de ser preso mal ponha o pé no estrangeiro, o seu antecessor, José Maria Marin, está, de facto, num calabouço suiço, o antecessor deste, Ricardo Teixeira, andou fugido em Miami, e o seu sogro João Havelange foi exonerado do cargo de presidente honorário da FIFA por corrupção - que organiza, mal e porcamente, o Brasileirão.
Os clubes não são sociedades anónimas desportivas - são geridos por dirigentes à Portugal dos anos 80, que mendigam reduções de impostos, gastam sem plano e quem vier a seguir que feche a porta.
Os treinadores, despedidos a torto e a direito por aqueles dirigentes (com oito jornadas, num torneio de 38, já metade dos participantes do Brasileirão-2015 tinha mudado de técnico), circulam de clube em clube numa experiência meio surreal (enquanto Alex Ferguson esteve no Manchester United, Vanderlei Luxemburgo, o típico treinador à brasileira, trabalhou em 27 lugares). E, pagos como príncipes, nem se preocupam em manter contato - salvo honrosas e interessantes exceções - com o exterior.
Os jogadores, como o aluno que muda de professor todas as semanas, não aprendem nada. E já chegam ao profissionalismo viciados em empresários e assessores, na maioria dos casos, abutres em busca de dinheiro rápido.
Os resultados deste desvario do topo à base são, como já foi dito, conhecidos. Em primeiro lugar: depois de tantas glórias, eis a seleção mais banal da história do futebol brasileiro. Em segundo lugar: um campeonato de nível técnico secundário, num país onde o futebol num passado recente se confundia com arte.
Não é vergonha um grande país do futebol estar em crise: a Alemanha da viragem do século atrasou-se em relação à concorrência. Ao Brasil caberia, como fizeram os alemães em relação à La Roja espanhola e à Premier League britânica, copiar humildemente processos e ideias na seleção e no campeonato e adaptá-los ao seu estilo.
Porém, o protecionismo brasileiro está entranhado. Soube-se agora pela voz do brasileiro do Barcelona Daniel Alves que, em Dezembro de 2013, o catalão Pep Guardiola, então desempregado, estava ansioso por treinar o Brasil. Mas Marin, o tal do calabouço suiço, opôs-se: na seleção brasileira, técnico brasileiro.
De Marin só se pode esperar mediocridade e bolor, já de Carlos Alberto Parreira, um treinador com mundo, exige-se mais. Pois propôs Parreira à CBF que se restrinja o número de jogadores estrangeiros. "Como se faz em Inglaterra", disse ele para buscar sustentação. Em Inglaterra, de facto, só jogadores de seleções no top-50 do ranking FIFA e determinado número de internacionalizações podem atuar na liga local. Mas lá a restrição colocou-se porque havia clubes com 11 estrangeiros titulares. No Brasil, há uma média de dois por cada plantel de 30 jogadores.
Enquanto três dos treinadores mais atualizados do país, Tite, Marcelo Oliveira e o colombiano Juan Carlos Osório, arrasaram a ideia de Parreira, a CBF, que infelizmente é quem manda, já fez saber que a estuda com muito interesse.
No fim das contas, o protecionista Brasil está é cada vez mais desprotegido.