No mínimo, duas em cada três personagens
vividas por Woody Allen nos seus filmes são hipocondríacas. Um dos
maiores sucessos de Molière, o mestre da comédia teatral, chama-se
"O Doente Imaginário" e versa, como o título indica, a "mania
das doenças". Prova-se assim que a hipocondria não é apenas
datada, paranóia de nova-iorquinos dos séculos XX e XXI viciados em
trabalho e em "shrinks", como o universo de Allen explora, mas
assunto que já fazia rir a Paris do século XVII. Universal,
intemporal e interdisciplinar, a hipocondria nos últimos anos
propagou-se, como se do seu habitat natural se tratasse, a um campo à
partida improvável: a economia.
Na Europa em geral e em Portugal em particular,
não é de hipocondria que se fala constantemente nos noticiários:
não, a economia portuguesa não está com a mania que está doente,
está mesmo doente e provavelmente mal diagnosticada, mal medicada e
a morrer pela cura e pela doença.
Mas nos EUA, país que saiu com a saúde
financeira menos abalada do que a Europa da crise global por si
provocada em 2008, também se fala a toda a hora nas maleitas do
mercado americano, nas dores dos empresários locais ou nos sintomas
preocupantes das finanças públicas - basta passar os olhos pelos
jornais de Nova Iorque e Washington.
E no Brasil, que se tornou BRIC de uma década
para a outra e viu o equivalente à população inteira de cinco
portugais sair da miséria? Como vai a hipocondria económica
brasileira? Vai muito bem, graças a Deus. Porque a saúde, ou a
aparência dela, é o território perfeito para a exploração da
hipocondria. A saúde, ou a aparência dela, é a antecâmara da
doença, acreditam os hipocondríacos. E, como um dia, todos
morreremos, os hipocondríacos sentem que, a longo prazo, terão
razão.
Pois o Brasil - garantem os analistas -
apresenta todos os sintomas de quem vai contrair a "doença
holandesa". A "doença holandesa", termo inventado pelo "The
Economist", é o problema que atinge economias demasiado
dependentes de um recurso económico, como a Holanda dos anos 70, que
sofreu um declínio acentuado do setor industrial após a descoberta
de um campo de gás natural no seu território. É como a "Maldição
do Petróleo", a teoria de que os povos dos países exploradores do
ouro negro vivem, quase sempre, na pobreza. Com petróleo fresquinho,
o Brasil, portanto, que se cuide.
Mais: apesar de abençoado por Deus e bonito
por natureza, sem falhas sísmicas relevantes, como largas regiões
da Europa e da Ásia, nem perigo de tufões e furacões, como o
midwest americano, ou de tsunamis, como o sudeste asiático, o Brasil
está em risco, imagine-se, de sofrer uma "tempestade perfeita".
Uma "tempestade perfeita económica", claro, expressão utilizada
na área quando se aproximam nuvens nas contas externas, ventos
fortes na política cambial e uma chuvada de críticas à política
fiscal.
Sobra o índice de desemprego, em invejáveis
5,2% (nos EUA é o dobro, em Portugal mais do triplo, em Espanha o
quíntuplo). Mas até aí os economistas vêem sinais de preocupação:
a população inativa cresceu e criaram-se menos novos postos de
trabalho este ano do que no anterior.
Com tantas doenças económicas no horizonte
segundo os novos hipocondríacos, os analistas económicos, os
brasileiros vão reagindo ao seu melhor estilo: curtindo o momento e
encarando a hipocondria como comédia, como Molière encarou e Allen
encara.
Isto apesar do cineasta americano a cada ano
que passa parecer mais magro e pálido e o francês, que descurava o
tratamento da sua tuberculose, ter morrido em palco ironicamente
enquanto interpretava "O Doente Imaginário".
Jornalista
Escreve à quarta-feira
Crónicas de um português emigrado no Brasil