

João Pedro Cury, CEO e acionista do grupo Santa Clara, referência na área da nutrição vegetal e bioinsumos da agricultura brasileira - “agronegócio”, como se diz no país - explica como é liderar uma grande empresa com caráter familiar: afinal, os pais fundaram e administraram o negócio, as irmãs também estão na operação e os filhos, se confirmarem serem as pessoas indicadas, continuarão o legado. E enumera os desafios de um setor muito condicionado pela pandemia e pelo ambiente geopolítico global. No contexto das eleições de outubro no Brasil, reforça que “ganhe quem ganhar, o agronegócio é resiliente”. Mas admite que “a direita é quem mais apoia o agro”.
Nós temos três valores fundamentais na Santa Clara: a inovação, buscamos sempre processos e produtos patenteados; as relações humanas, em que o facto de sermos uma empresa familiar traz algo de mais intenso, até porque temos muitos eventos em que promovemos o encontro de cônjuges, filhos, famílias; e a longevidade, outro valor que se conecta a sermos uma empresa familiar, porque os meus pais fundaram e administraram a empresa e eu e as minhas duas irmãs estamos envolvidos. E a seguir serão os nossos filhos a entrarem na operação caso eles tenham interesse e se auditorias externas confirmarem que eles são as pessoas mais indicadas para essa posição.
Vantagens. Houve um período em que fundos de investimento tentaram consolidar a distribuição de insumos no país pela via das aquisições e isso motivou as empresas familiares a permanecerem e crescerem com mais vínculo e com mais segurança.
Houve uma miopia causada pela pandemia, que causou o maior consumo de alimentos do mundo. Até eu, que não tinha o hábito, passei a fazer compras mensais. E isso trouxe uma rentabilidade para a agricultura fora de qualquer padrão histórico, o que levou a um acúmulo do investimento do produtor e das empresas. Porém, depois voltou a normalidade e com um fator geopolítico, as guerras, que aumentou o preço dos insumos. Por isso, sim, o momento hoje é delicado: as empresas investiram muito, depois o preço dos insumos subiu e o governo atual do Brasil ainda incentiva pouco.
A direita tem tendência a preocupar-se mais com o défice fiscal e isso impacta na taxa de juros e por consequência no agro. Além de ter programas de fomento e incentivo mais robustos. Acresce que são os partidos mais à direita que defendem mais o setor em Brasília. Mas o agro é resiliente, ganhe quem ganhar.
Sem dúvida, porque mesmo que tenhamos um resultado positivo em EBITDA, por exemplo, necessitamos muito de recursos em banco mas as taxas de juros a 14 ou 15% são quase insustentáveis para empresas com baixa margem. Nós na Santa Clara ainda temos margem, temos robustez, imagino outras empresas.
Sim, o Brasil por ser um dos maiores produtores do mundo - acredito que em 30 a 40 anos vai ser o maior, porque tem água, porque tem terra e porque tem muita competitividade - está num nível tecnológico de primeira linha, acima até dos EUA. No geral, penso que a mecanização tem tido grande evolução e que os combustíveis darão um grande salto com o uso do etanol em vez do diesel. Na Santa Clara, da área de insumos, já temos protetor solar com café, soja, algodão e feijão, um passo adiante em relação aos protetores com frutos e hortaliças, já usados na Europa, e estamos na liderança em matéria de bioinsumos com produtos de terceira geração.
Sim, há cada vez mais mulheres no agro e em cargos de liderança. Aqui na Santa Clara a minha mãe foi presidente do conselho, as minhas duas irmãs, uma é conselheira e outra está na operação como arquiteta, temos 30% de mulheres no quadro geral, sem recurso a quotas e com salários balizados. Elas trazem muita disciplina e eficácia na entrega de resultados. E há outro fator interessante...
O das pessoas que não são do agro mas migraram para o agro, como médicos, por exemplo, e que trazem conceitos fora da rigidez de quem já é do ramo até porque ainda há muito a profissionalizar noutros pontos, como, por exemplo, na área da comunicação internacional: o Brasil é dos países que mais preserva, tem a lei ambiental mais rigorosa do mundo e é noticiado no estrangeiro apenas pelo desmatamento. Por outro lado, a qualidade do agro brasileiro permite produzir até vinhos e queijos premiados que podem ter impacto no contexto do acordo UE-Mercosul.