Mario Ghio: “No Brasil, a educação já é ampla, só falta torná-la boa”

Presidente do Instituto Alfa e Beto e fundador da Verbum Educação com investimentos também em Portugal, fala dos desafios dos empresários do setor, às vésperas das eleições
Mario Ghio: “No Brasil, a educação já é ampla, só falta torná-la boa”
Mario Ghio, presidente do instituto Alfa e Beto
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Mario Ghio, presidente do instituto Alfa e Beto, fundador da Verbum Educação, conselheiro de escolas privadas e de ONGs dedicadas a escolas públicas e um dos rostos da marca e metodologia canadiana Maple Bear, inclusive em Portugal, resume ao DV quais os desafios de um empresário da educação no Brasil em Portugal. 

Em vésperas da eleição presidencial brasileira afirma ainda que a esquerda brasileira é populista mas que o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro foi tão ou mais irresponsável.      

Quais os maiores desafios de um empresário da área da educação?

Todos os que qualquer empresário sofre, da burocracia aos tributos, passando pelos juros que são tão altos que tornam quase impossível que qualquer business plan pare de pé. Mas eu acrescentaria um específico: o controle social dos media, da opinião pública, às vezes até do poder judicial. Esses agentes entendem que a educação é um direito de todos – e de facto é mas na área pública – e os empresários que trabalham na área privada são, por isso, cobrados por serem pagos pelos seus serviços. O que é estranho porque as pessoas sabem que quando optam por saúde privada têm de pagar…    

Sondagem recente mostra que 47% dos brasileiros consideram a educação do Brasil má. Como ela está?

É facto que a percepção geral no Brasil é de que a educação pública do país não está bem. Mas é preciso contextualizar: a nossa luta agora só é pela qualidade porque já vencemos a luta pela quantidade. A educação só se tornou direito do cidadão brasileiro a partir da constituição de 1988 e a universalização da escola pública só foi atingida em 1998. Ou seja, tínhamos um contingente gigantesco de brasileiros fora da escola que tiveram oportunidade de estudar: desde 1988 passaram pelas escolas do Brasil o equivalente às populações de França, Alemanha, Espanha e Portugal juntos, sinal de que foi um esforço gigantesco para oferecer uma escola presente na sociedade brasileira. Embora frágil. O desafio agora é fazer com que a educação pública passe de ampla a boa. Entretanto, com a queda demográfica acentuada nas classes D e E, ao final de 2030 teremos uma população escolar oito milhões menor do que a que tínhamos em 2020, o que nos permitirá qualificar. E a família pobre brasileira, registe-se, não é tão descontente com a escola pública porque compara-a com a da geração dos pais em tempo, em material didático, em alimentação, a prova disso é a educação aparecer só como sexta prioridade das famílias nas sondagens eleitorais, muito atrás da primeira, a segurança pública.            

A diferença entre escolas privadas e públicas pode no futuro ser menos gritante?

Em Vitória, no Espírito Santo, ou em Sobral, no Ceará, o maior case study do país, cujo material didático é fornecido pelo meu instituto sem fins lucrativos, o Alfa e Beto, só é oferecido ensino médio porque a oferta pública no fundamental é ampla e boa… 

Então, o Brasil recompensa cada vez mais o mérito?

Sim, com a abertura de quotas obrigatórias para alunos da rede pública, porque as melhores universidades, as públicas, eram usufruídas unicamente de quem vinha das privadas. A outra metade das vagas também tem avanço em mérito, com 10 a 15% destinadas a medalhistas de olimpíadas. O restante é ampla concorrência.        

Quais investimentos tem em Portugal e que diferenças vê entre o país europeu e o Brasil?

Com os meus sócios, tenho dois investimentos em Portugal, um é a master franqueadora que representa a Maple Bear, metodologia do Canadá, o país de língua inglesa mais bem sucedido em exames internacionais, e outras duas escolas da própria Maple Bear, no Porto e no Estoril, que nós compramos para tornar a marca mais presente. O que é diferente entre os países: primeiro, no Brasil, podemos abrir no local comercialmente mais atrativo, já Portugal é muito restrito em imóveis para escolas, o que nos levou a comprar escolas existentes e só mudarmos marca e metodologia; segundo, a escala: no Brasil em qualquer cidade há centenas de milhares de pessoas e em em Portugal pode haver lugares sem crianças suficientes.         

Para um empresário da educação, é importante o resultado das eleições?

Se, em tese, a eleição de alguém de direita é mais pro-empresariado, na prática, o governo de Bolsonaro que tivemos foi tão ou mais irresponsável do que os de Lula. Essa direita conseguiu, sendo estridente, ganhar a eleição mas não conseguiu, por falta de competência, governar o país – com ele, a Educação teve cinco ministros em quatro anos e nenhum é recordado com saudade. Já na esquerda populista todos os projetos morrem porque ela quer ser eleita e não oferecer um projeto que mude o Brasil de patamar.           

E há excesso de ideologia no debate sobre a educação no Brasil hoje? 

A ideologia que mais atrapalha é uma ideologia não política: é a ideologia da academia, apegada a verdades educacionais do século passado, a [Jean] Piaget, [Lev] Vygotsky ou Maria Montessori, que foram grandes pensadores mas com as limitações que o tempo lhes impunha, ou seja, antes de as neurociências desvendarem segredos de como as pessoas aprendem. Por exemplo, depois de 60 anos de pesquisa mundial do método de alfabetização fónico, no Brasil ele ainda é demonizado.

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“Um empresário para investir no Brasil tem de ser um herói”
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