Brasília morreu

A 21 de Abril de 1960 nasceram, com pompa e circunstância, duas Brasílias
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A primeira foi inaugurada em discurso solene do presidente Juscelino Kubitschek, que declarou,“sob a proteção de Deus, inaugurada a Cidade de Brasília, a capital dos Estados Unidos do Brasil”.

Antes, foi rezada uma missa, que levou às lágrimas parte do público, incluindo JK.

Antes ainda, o presidente fechara os portões do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, a capital que deixava de o ser, noutro momento cheio de emoção e simbolismo.

O dia em causa foi escolhido por coincidir com o da execução de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, herói da independência do país, e com a fundação da antiga Roma.

O sonho da nova capital já tinha dois séculos, desde que o Marquês do Pombal sugeriu a sua transferência para o interior por temer pela segurança marítima do Rio, situado no litoral.

No século XIX, José Bonifácio, patriarca da independência, usou pela primeira vez o termo “Brasília”.

E desde a constituição republicana de 1891 ficou prevista a sua execução.

Porém, só na era JK o projeto se consumou, graças ao talento dos arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer e do engenheiro Joaquim Cardoso que a tornaram uma das maravilhas do urbanismo.

Juscelino Kubitschek foi padrinho da segunda e não menos simbólica Brasília: Brasília Maria Góis da Costa, primeira cidadã nascida na novíssima capital, ou seja, a primeira brasiliense da história – os outros habitantes da capital, incluindo, claro, os pais de Brasília Maria Góis da Costa não eram brasilienses mas sim candangos, o gentílico atribuído aos migrantes chegados à nova cidade e que, ainda hoje, constituem a maioria dos seus habitantes. Imensos habitantes.

Porque era suposto Brasília, a cidade, ter apenas 500 mil habitantes no ano 2000. Porém, por essa altura os registos apontavam para números cinco vezes superiores que não páram de subir. Ceilândia, o subúrbio deteriorado onde fica a Sol Nascente, a segunda maior favela do país, contribui para essa matemática com mais de 400 mil habitantes.

E para outra: a capital é a cidade mais desigual do país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Para tanto, além das misérias da Sol Nascente e de outras favelas que tais, contribuem os salários principescos de funcionários públicos de múltiplos escalões e de todos os poderes.

Incluindo os deputados e os senadores, representantes do sinistro poder legislativo brasileiro, que apesar dos ordenados gordos ainda trocam os seus valiosos votos por favores, cargos e dinheiros no limiar da legalidade – ou para lá desse legalidade, já que 60 por cento deles têm casos pendentes na justiça, de corrupção a lavagem de dinheiro, de formação de quadrilha a organização criminosa, de sequestro a assassinato, de Mensalões a Petrolões.

Brasília Maria, que vivia pobre, resumida a uma cama de um quarto carente de uma casa sem pintura de uma periferia perigosa da cidade homónima, e sofria de diabetes, de hipertensão, de esquizofrenia e de bipolaridade, morreu há um mês, aos 56 anos - depois de esperar quatro dias por uma internação numa unidade de cuidados intensivos.

A outra Brasília, a cidade dos sonhos de Pombal, Bonifácio, Niemeyer e Kubitschek, também se tornou diabética, hipertensa, esquizofrénica, e, sem dúvida, bipolar. Aliás, em certa medida, também já morreu.

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