O comissário europeu para o Mercado Interno e Indústria, Thierry Breton, não quer operadores de telecomunicações em confronto com as empresas tecnológicas de referência (big tech) por causa da consulta pública lançada para debater o futuro das comunicações eletrónicas e quem deve financiar as redes fixas e móveis, na União Europeia (UE). Breton explicou que Bruxelas quer encontrar equilíbrios e não escolher um lado.
"Para mim, o verdadeiro desafio é garantir que até 2030 os europeus e as empresas em toda a UE tenham acesso à conectividade Gigabit. [Internet] rápida, fiável e capaz de assegurar o uso intensivo de dados", afirmou Thierry Breton no Mobile World Congress (MWC), que arrancou esta segunda-feira e decorre até 2 de março.
A 23 de fevereiro, Bruxelas lançou uma consulta exploratória sobre quem deve subsidiar a conectividade na UE. A consulta termina a 19 de maio. Não é certo que as big tech venham a ser obrigadas a comparticipar o desenvolvimento das redes e da conectividade na UE. Para já, o executivo comunitário quer reunir opiniões sobre em que medida a crescente procura por conectividade e os avanços tecnológicos afetam "necessidades futuras" da UE, e se é preciso exigir às empresas tecnológicas a participação nos custos das redes de telecomunicações.
A discussão sobre a "partilha justa" do investimento nas infraestruturas de telecomunicações tem décadas e a abertura da UE ao argumento das telecom gerou indignação entre empresas como Alphabet (Google), Meta (Facebook), Apple, Amazon e Netflixx. A associação setorial Computer & Communications Industry Association defendeu, recentemente, que a UE está a ceder ao lobby das telecom e a criar na prática um imposto que coloca em causa a neutralidade de Bruxelas sobre o uso da internet.
"Não é assim que vejo as coisas", afirmou esta segunda-feira o comissário europeu. Enfatizando que a consulta foi recebida como uma "batalha" entre duas gigantes indústrias, que em teoria se complementam, Breton explicou: "Vamos precisar de encontrar um modelo de financiamento para o enorme investimento [que as metas europeias sobre a conectividade exigem], distribuindo-o de forma justa", afirmou.
Ou seja, sensível ao argumento das telecom, Bruxelas procura incentivar a criação de um novo modelo de financiamento para os investimentos necessários em redes de alta velocidade.
A UE assumiu o objetivo de ter toda a região comunitária coberta com 5G e todas as famílias com acesso a internet de banda larga de alta velocidade até 2030. Ora, os operadores de telecomunicações entendem que não é justo assumirem sozinhos os encargos desse objetivo e querem o contributo das gigantes tecnológicas, considerando que os serviços digitais (Whatsapp e plataformas de streaming, por exemplo) das grandes tecnológicas beneficiam gratuitamente das redes das telecom.
"Como podemos chegar a este objetivo da sociedade Gigabit, como é feito o investimento e como garantir que é eficiente?", questionou o comissário europeu, defendendo que é necessário um novo modelo no desenvolvimento das telecomunicações e, simultaneamente, uma adaptação dos regulamentos em vigor para a indústria.
As consolidações que têm surgido em diferentes países da UE também foram abordadas por Breton. ""Não estamos a aproveitar o máximo potencial do mercado único [que tem 440 milhões de pessoas]", defendeu. Para o comissário europeu, também deve existir "uma discussão séria" sobre eventuais obstáculos que as telecom enfrentam quando avançam para consolidações transfronteiriças, ou seja, que envolvem operações em países diferentes.
O jornalista viajou até ao Mobile World Congress a convite da Huawei.